UMA ABORDAGEM TEOLÓGICO-EXEGÉTICA
DO TERMO GRAÇA EM ROMANOS 6.1 A 10
Por Ricardo Luiz de Freitas
Bacharel e Mestre em Teologia e Especialista em Ciências da
Religião.
Introdução
O presente trabalho tem o objetivo de tratar sobre
a Graça em Romanos , contudo de forma mais especifica no
capítulo 6, dos versos 1 a 10. Isto porque neste trecho da
Carta de Paulo aos Romanos ele trata da relação entre
o velho e o novo homem e como a questão da graça que
nos impulsiona a um novo estilo de vida longe das influencias negativas
da sociedade. Porque digo influencias negativas? Porque nem tudo
o que nossa sociedade produz é ruim, contudo devemos estar
atentos as questões que nos levam a ter um estilo de vida
baseado em questões materialistas, consumistas e egoístas.
Dificultando dessa forma uma vivência digna e mais humana
para cada um de nós.
Num primeiro momento iremos tratar do significado
do termo graça e como que ele se aplica as nossas relações
vivenciais. Logo após iremos falar sobre algumas características
da sociedade que já em Romanos Paulo orienta para que estejamos
atentos e como que a graça pode nos fazer romper com valores
e idéias que nos afastam de uma vida digna.
No momento seguinte iremos tratar do contexto de
Romanos 6 e finalmente como isso pode nos ajudar a viver de maneira
humana e digna em tempos de tanta desigualdade e injustiça
social.
O QUE SIGNIFICA O TERMO GRAÇA?
O termo grego para graça é “karis”
e implica não em uma mentalidade desconhecida ou ignorada
até então, mas sua ação que ocorre agora.
A graça ao cotrário do que muitos pensam não
é uma desculpa para se continuar no erro, como se tudo o
que fizermos de errado ira ser perdoado em algum momento. Mas a
graça é a certeza de que apesar de errarmos podemos
contar com o perdão divino.
A questão da culpa que assola tantas pessoas
é trabalhada quando compreendemos que somos passivos do perdão
divino e por isso não precismos viver continuamente o peso
de nossas escolhas erradas.
Quando falamos em graça de Deus é necessário
compreender que o ato máximo da graça de Deus consiste
no fato de que entregou Cristo à morte, e isso como sacrifício
expiatório pelos pecados dos seres humanos.
Pode-se dizer então que a “káris”
é o ato de Deus, um presente para os seres humanos. A graça
também é tudo aquilo que Deus concede ao ser humano
para que ele desenvolva seus dons e ministérios. Paulo chama
de “káris” o dom do apostolado a ele confiado
que, ao mesmo tempo, é missão: Rm 1.5; 12.3.
A prática do amor cristão também
é chamada de “káris”, pois ela é
uma dádiva de Deus: II Cor. 8.1; II Cor. 9.8. Os dons especiais
que os cristãos recebem são chamados “karismata”
( dons da graça): Rm 12.6; I Cor. 7.7.
Outra questão importante é que para
Paulo por trás de todo o processo de salvação
está sempre a iniciativa de Deus. Nenhuma outra palavra expressa
sua teologia tão claramente sobre a questão da salvação
como “graça”. A graça em Paulo resume
o evento de Cristo, mas também a graça que relizou
a irrupção vital na experiência humana individual,
ou seja, aquilo que nos é dado. A graça também
expressa a capacitação divina que continua através
das habilitações e missões especiais. Em resumo,
“kápis” está ligada a “agape”(amor)
no centro mesmo do evangelho de Paulo.
Mas porque Paulo usa este termo? Uma possível
explicação está no contexto veterotestamentários.
Havia duas palavras que tratavam da questão da graça,
essas duas palavras denotavam ato generoso superior a um inferior:
HEN – Graça, favor - Mais unilateal, podia referir-se
apenas a uma situação específica e ser retirada
unilateralmente.
HESED – Favor gracioso, bondade amorosa, amor de aliança
- A segunda palavra era mais relacional. No seu uso secular implicava
grau de reciprocidade: quem recebia um ato de HESED respondia com
um ato semelhante de hesed. Mas no uso religioso estava profundamente
arraigado o reconhecimento de que a iniciativa de Deus era compromisso
duradouro.
Para Paulo então podemos dizer que a palavra
“karis” denota a unilateralidade de hen e o compromisso
duradouro de hesed.
Outra forma de se explicar este termo por Paulo
é através do uso do grego em sua época. Embora
seja um termo comum no grego com uma larga faixa de sentidos ( beleza,
boa vontade para com, favor, gratidão por prazer em), “káris”
não tinha conotação particularmente teológica
ou religiosa.
No contexto grego o termo “káris”
trata-se de benefício, dos benefícios de deuses ou
de indivíduos para cidades ou insituições,
karis como favor feito, e regularmente no plural “karites”,
“favores” concedidos ou retribuídos.
Neste contexto o termo deve ter sido familiar para
Paulo e seus leitores, diariamente visível nas numerosas
inscrições que adornavam qualquer cidade grega, comemorando
ou homenageando benfeitores do passado. Quando os leitores de Paulo
liam a palavra “kapis”, geralmente a linguagem do benefício
terá sido o contexto imediato de significado para a sua compreensão
do termo.
Com base nos significados acima podemos dizer então
que karis pode ser entendida das seguintes formas:
1) A graça de Deus é sempre um presente – oriunda
da ralação com HESED. Isso é visto numa característica
do uso paulino dos termos dorea (presente) e dorean(de presente),
estes usualmente estão ligados com o conceito de karis.
2) A graça é vista como ação. É
um conceito dinâmico para Paulo. Karis descreve a experiência
dinâmica de ser coberto pela graça (II Cor. 12.9)
3) è vista também como benefícios concedidos,
isto é derivado do conceito de HEN, que evidencia. Toda graça
é expressão da ação divina.
4) A graça é ação generosa e não
merecida de Deus do começo ao fim.
5) A graça gera graça. Ao recebermos a graça
de Cristo isso gera em nós atos de bondade e fraternidade
( I Cor. 12.7. A graça se manifesta de forma concreta quando
isso é compartilhado com a comunidade. A Graça gera
um benefício para o bem comum.
IGREJA EM ROMA E A SOCIDADE
A sociedade romana era baseada na desigualdade,
os escravos de vários tipos realizavam os serviços
braçais e o cidadão ( membro da polis) não
realizava trabalhos braçais. O cidadão passava o seu
tempo desfrutando do trabalho dos outros ou na academia ( fazendo
exercícios físicos ou estudando).
Ao falar sobre graça Paulo leva os seus
leitores a terem um estilo de vida que seja diferente da sociedade
na qual eles estão inseridos. Em nosso tempo o desafio é
o mesmo e gostaria d focalizar algumas dessas características
que devem ser repelidas com a manifestação de atos
graciosos.
A CULTURA DO PRAZER (HEDONIMSO)
Ter prazer virou quase que um objetivo de vida
em nossa sociedade, não importa o que você faça,
mas tenha prazer com isso e não apenas sexual, mas emocional,
psicológico ou social. E este prazer não é
aquele que vem de experiências saudáveis e bem estruturadas,
mas este prazer que a sociedade praticamente nos impõe vem
rápido e vai rápido, causando sempre uma sensação
de vazio. Uma festa não é suficiente, você está
sempre a procura de mais. Uma garrafa de bebida não satisfaz,
então se bebe até cair. O encontro com os amigos não
é suficiente, pois não se tem muito do que se falar,
afinal conversar de “bico seco” não tem graça,
então se bebe bastante até perder os sentidos e com
isso a conversa fica mais fútil ainda. Nossas relações
são por interesse se o contato com um grupo ou um indivíduo
não me gera algum tipo de prazer então não
presta.
A GRAÇA – pregada por Paulo já
nos alerta que nos atitudes devem ter como base a fraternidade e
atos de ajuda ao outro. Não podemos agir como se o que importa
é a nossa satisfação pessoal. O ato gracioso
de Deus através de Cristo nos leva a um caráter fraterno
e solidário.
O MATERIALISMO
Para a Bíblia os bens materiais não são os
bens mais importantes para o ser humano. Isso é totalmente
contrário ao que a sociedade em que vivemos procura nos mostrar.
Em nossos dias cada vez mais você é incentivado a dar
valor as coisas materiais, por mais mística que a sociedade
se encontre ela ainda sim, manifesta a experiência com o sobre
natural através de objetos e elementos concretos (cristais,
pedras, estátuas...). Nossa importância é nivelada
pela quantidade de bens que possuímos, somos avaliados pelo
tipo de carro, roupa e bairro que moramos.
A GRAÇA – sendo a graça um
favor imerecido, este termo nos leva a entender que a pessoa ao
nosso lado tem valor, não pelo o que ela possuí, mas
por ser um ser humano.
Esses dois pontos apresentados se encontravam presentes
na sociedade romana que buscava todo e qualquer tipo de prazer (Romanos
1. 18-25) e que qualificava as pessoas por sua posição
social e riqueza. Da mesma forma nos encontramos hoje influenciados
por esse valores e outros. Mas ao falr sobre a graça de Deus
devemos entender que a solidariedade e a busca de ações
fraternas são o caminho para uma vida em harmonia com Deus
e o próximo.
O CONTEXTO DE ROMANOS 6. 1-10
No início deste capítulo, Paulo pretende
rejeitar uma interpretação falsa que se poderia dar
a seu ensinamento: Onde o pecado se multiplicou a graça superabundou
– Rom. 5.20, mas não se trata de ficar no pecado para
a graça se multiplicar. Paulo quer mostrar que esse comportamento
é incompatível com a condição cristã
(Rm. 6.2).
O texto de Rom. 6.1-11 nos aproxima de Rm. 5. 12-21.
O próprio Paulo parece convidar-nos, deduzindo o significado
do batismo a partir do que foi a morte de Cristo: morte ao pecado
uma vez por todas. A antítese morte-vida, que em Rm. 6.1-11
diz respeito ao cristão, nos manda à antítese
morte-vida de Rm 5.12-21: em Adão, por quem todos fomos constituídos
pecadores, todos morremos; em Cristo, que traz em si a humanidade
nova, todos não chamados à vida.
O apóstolo está preocupado em exortar
os cristãos a renunciarem o pecado, estava, inclinado a mostrar
aquilo que no batismo exigia uma “morte”. A graça
não é desculpa para se continuar no erro, mas uma
motivação para se buscar um vida que se assemelhe
ao Cristo.
CONCLUSÃO
O termo graça no leva a perceber o amor
de Deus e a sua ação maior que foi a entrega de Cristo
na Cruz por cada um de nós. Um estudo das origens do termo
nos leva a perceber que a concepção de graça
da parte de Deus, já estava presente no Antigo Testamento
( HEN e HESED) e que na cultura grega a idéia de um favor
imerecido era comum.
Assim somo impelidos como seres humanos a desenvolver
atitudes que favoreçam o outro e façam com que sejamos
pessoas mais fraternas e solidárias. Apesar de nossa sociedade
tentar nos importar valores que nos denigrem como seres humanos
é possível viver de maneira digna ficando longe de
ideais que se mostram egoístas e anti-humanos.
O texto de Romanos 6, nos desafia a desenvolver
um estilo de vida baseado no amor de Deus e na ação
graciosa de Cristo, buscando ficar longe de tudo aquilo que nos
impede de desenvolver atitudes mais humanitárias. Cristo
é o exemplo maior de graça e amor e tendo-o como modelo
podemos fazer de nossas famílias e lugares relacionais locais
de solidariedade.
BIBLIOGRFIA
? REY, BERNARD. NOVA CRIAÇÃO EM CRISTO – NO
PENSAMENTO DE PAULO, ED. ACADEMIA CRISTÃ.
? DUNN, JAMES D.G. A TEOLOGIA DO APOSTOLO PAULO. ED. PAULUS
? BULTMANN, RUDOLF. TEOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO. ED. TEOLOGICA.
|