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CENTRALIDADE BÍBLICA NO DESCOMPASSO DA HISTÓRIA.
UM OLHAR SOBRE A RELAÇÃO BÍBLIA/REALIDADE EM PERSPECTIVA EVANGÉLICA A PARTIR DOS BATISTAS BRASILEIROS.

Alessandro Rodrigues Rocha

1-INTRODUÇÃO

Queremos tomar um par de óculos nas mãos, para ler um pouco das relações que parte dos cristãos tem com a Bíblia nessa nossa pátria brasileira. Os óculos têm diferentes graus em suas lentes: uma das lentes permite ver com clareza a Bíblia e, com isso, ela é colocada devidamente em seu lugar. A outra lente, bastante desfocada, atrapalha o olhar sobre a realidade, não permitindo uma adequada visão acerca dela.

Como tudo aquilo que não é bem visto acaba sendo evitado, a realidade é colocada de lado. Como resultado dessa visão desfocada, acontece um descompasso entre a Bíblia (vista com a lente ajustada) e a Realidade (olhada de forma distorcida pela lente velha e gasta). Esse descompasso estabelece uma descontinuidade entre um e outro, gerando certa ‘esquizofrenia’, onde o crido não consegue ser vivido.

É exatamente o conteúdo denso dessa metáfora que queremos aprofundar em nosso texto. Para isso, buscaremos entender as origens desse descompasso, seus momentos de maior tensão, seus desdobramentos na fé cristã evangélica brasileira e, alguns possíveis elementos que possibilitem a superação desse ‘problema de visão’.

2- A BÍBLIA E OS EVANGÉLICOS: ENTRE O CRESCIMENTO DA SOLITUDE E A DIMINUIÇÃO DA SOLIDARIEDADE.

Historicamente os evangélicos no Brasil foram cognominados “os Bíblias”. O que intencionalmente era dito como xingamento, era recebido como reconhecimento da mais fundamental característica de sua identidade: centralidade e autoridade plena da Bíblia para a vida dos fiéis.

Ninguém duvidaria desse distintivo na identidade evangélica brasileira. O que, porém, não está objetivamente claro nessa primeira observação, é a continuidade e a descontinuidade que essa centralidade do texto bíblico guarda com a vida concreta, vivida nesse solo brasileiro.

A pergunta é simples: quanto essa centralidade da Bíblia na vida dos fiéis toca na centralidade da vida mesma? Ou ainda, quanto a vida onde a Bíblia é entronizada corresponde à vida concreta onde os dramas reais são vividos? Há continuidade ou descontinuidade entre a “vida da Bíblia” e a “vida dos fiéis”?

Essas são questões hermenêuticas, que podem desnudar o eixo da relação entre evangélicos e o texto bíblico. Nossa tese é que essa relação (evangélicos brasileiros e texto bíblico) padece de um descompasso, onde a vida que a Bíblia é central, não é a vida mesma do povo, antes, é uma projeção, por vezes chamada vida espiritual.

Esse descompasso quer ser percebido na fé evangélica brasileira, a partir da escolha de uma de suas denominação: os Batistas. Essa escolha justifica-se de dois modos: em primeiro lugar por uma questão de delimitação e, em segundo lugar, pela distinção que os eles têm nessa ênfase da centralidade da Bíblia na vida dos fiéis. Dessa forma diríamos que podem representar certa matriz da hermenêutica evangélica brasileira.

Para desenvolvermos nossa tese, faremos um itinerário que nos levará do crescimento da solitude, à diminuição da solidariedade. Esse itinerário é, por assim dizer, uma metáfora da relação dos protestantes com o texto bíblico e a tradição . Partiremos do princípio basilar da Reforma Protestante – Sola Scriptura - até a máxima doutrinária dos Batistas – a Bíblia como única regra da fé e prática -, buscando evidenciar o gradual rompimento que a hermenêutica bíblica evangélica provocou na relação entre texto e leitor.

2.1. Sola Scriptura: Início da Solitude como afastamento do Magistério Eclesiástico.

A história da hermenêutica protestante é marcada por uma radical centralidade da Bíblia como regra última para sua própria interpretação. A Bíblia deve ser interpretada por ela mesma. É como afirma o próprio Lutero: “A Escritura é, pois, sua própria luz. É uma coisa grandiosa quando a Escritura interpreta a si mesma” .

Formulado em perspectiva negativa, esse princípio estabelece uma crítica à Teologia católica medieval, sobretudo, ao magistério eclesiástico como instância interpretativa das Escrituras. Em seu texto “A Nobreza Cristã da nação Alemã”, Lutero ataca o que chama de Segunda Muralha (das três existentes) que precisa ser destruída.

Querem ser mestres da Escritura, ainda que, durante toda a sua vida, não a estu-
dam. Atrevem-se a atribuir apenas a si próprios a autoridade; fazem-nos crer com
palavras desavergonhadas que o papa não poderia errar em questão de fé (...). É
por isso que se acham no direito canônico tantas leis heréticas e não-cristãs (...).
Se assim fosse, qual seria a necessidade ou a utilidade da Sagrada Escritura?

É verdade, que esse posicionamento de Lutero provocou algum distanciamento da Bíblia em relação a outras instâncias de autoridade hermenêutica. Porém, isso precisa ser mensurado em limites mais precisos. Esse princípio hermenêutico de Lutero - a Bíblia é seu próprio intérprete - deve ser compreendido em relação ao magistério, não à tradição.

É por isso que dizemos que na Reforma Protestante há o início da solitude hermenêutica. Esse princípio luterano afastou a hermenêutica bíblica de uma das instâncias de autoridade estabelecidas na teologia até então. Certamente isso se deu para a preservação da centralidade da Bíblia para a fé cristã, porém, não se pode negar que a hermenêutica bíblica perdeu um canal de diálogo com realidades externas de autoridade que por vezes representavam a sociedade.

O que importa nesse momento, porém, é mostrar que o princípio hermenêutico estabelecido por Lutero, não isolou totalmente a Bíblia das instâncias históricas e sociais. Ele não rompeu com outra coisa, senão, com o magistério eclesiástico. Mesmo colocada assimetricamente no horizonte teológico, a hermenêutica luterana preservou a tradição como fonte para a teologia.

Sola Scriptura não era nuda scriptura. Nunca era simplesmente uma questão de
Escritura ou tradição, Escritura Sagrada ou Igreja Sagrada. A suficiência das
das Escrituras funcionava no contexto em que a Bíblia era reconhecida como livro dado à Igreja (...). A Igreja, longe de ter prioridade sobre as Escrituras, é na verdade criação das Escrituras, nascidas no ventre das Escrituras .

Não há, portanto, um enclausuramento hermenêutico nas páginas amareladas da Bíblia. Como afirma Carl Braaten: “Tal ênfase na soberania da Escritura não implicava a rejeição da tradição da Igreja. Não se tratava de um biblicismo exclusivo, que não deixasse espaço para os credos, dogmas e tradições clássicas da Igreja” .

Nossa insistência nesse ponto fundamenta-se na preocupação de evidênciar que não houve um rompimento entre a leitura da Bíblia feita na Reforma, e a tradição teológica acumulada ao longo da história cristã. Essa percepção indica que não houve uma descontinuidade entre Bíblia e história, entre Bíblia e sociedade.

No princípio hermenêutico de Lutero não há lugar para o divórcio entre a Bíblia em si e as interpretações vitais feitas a partir dela ao longo da história. A interpretação da Bíblia a partir da própria Bíblia não nega o sentido da comunidade que a lê. Já que todo sentido é também daquele que lê. Dessa forma poderia se dizer que a Bíblia lida é o próprio intérprete da Bíblia lida. Na preservação da tradição como fonte teológica (mesmo que segunda) está a continuidade entre Bíblia realidade.

É possível dizer que a hermenêutica bíblica apresentada por Lutero inicia um processo de solitude, já que se afasta da instância magisterial (de suas distorções, mas também de suas contribuições), mas ainda não impede a solidariedade entre a Bíblia e a realidade vivida na sociedade que a lê.

2.2. A Bíblia como única regra de fé e prática ou a Bíblia recolhida a lugares ermos. Solitude como afastamento da tradição.

A máxima A Bíblia é a única regra de fé e prática é um distintivo dos batistas desde a sua origem. A declaração doutrinária de 1677 já afirmava:

A Escritura Sagrada é a única regra suficiente, certa e infalível de todo o conheci-
mento, fé e obediência para a Salvação. Embora a luz da natureza e as obras da
criação e providência manifestam a bondade, sabedoria e poder de Deus, não são suficientes para dar esse conhecimento de Deus e da sua vontade, necessário para a salvação (...)Todo o conselho de Deus acerca de todas as coisas necessárias para sua glória, salvação dos homens, fé e vida, está expressamente estabelecido ou necessariamente contido na Escritura Sagrada, nada devendo a ela ser acrescentado, seja uma nova revelação do Espírito ou tradições de homens (...) A regra infalível de interpretação da Escritura é a própria Escritura .

Essa declaração, bem como a máxima que encerra, embora clara, precisa ser verificada a partir da auto-compreensão Batista sobre sua identidade. Da mesma forma que sua relação com instâncias teológicas outras. Só dessa maneira poderemos compreender a hermenêutica bíblica Batista.

A auto-compreensão Batista acerca de sua origem e identidade, é um elemento importante para perceber o quanto eles representam o movimento evangélico brasileiro . Há uma descontinuidade histórica, em nível prático, com a reforma protestante e com seus postulados teológicos. Vejamos alguns elementos:

O Luteranismo e as Igrejas presbiterianas e reformadas eram de muitas maneiras
continuação da Igreja Católica nas suas respectivas terras (...). Na mesma época
havia um outro tipo de protestantismo, mais radical do que os movimentos acima
mencionados (...). Em geral, procuravam aceitar apenas as Escrituras e especial-
mente o Novo Testamento como sendo sua autoridade final. Tinham a tendência
de descartar tudo que não era expressamente citado na Bíblia .

A identidade Batista é originária dessa distinção com os movimentos primeiros da Reforma. Distingue-se, portanto, duas correntes históricas diferentes acerca da origem dos batistas:

Alguns historiadores Batistas destacam a possível influência dos Anabatistas e
Mennonistas do continente. Algum relacionamento entre os Batistas e os Anaba-
tistas da Inglaterra é inegável.
Outros historiadores Batistas afirmam que os Batistas da Inglaterra surgiram dire-
tamente do Novo Testamento, citando os movimentos revolucionários de séculos
anteriores...

Desse ponto podemos extrair aquilo que talvez seja o elemento comum aos evangélicos brasileiros: uma relação imediata com o Novo Testamento, e sua decorrente negação da tradição cristã como fonte para a teologia. Isso significa, em última análise, uma negação de diálogo entre o texto bíblico e os conteúdos acumulados das interpretações feitas pelos cristãos ao longo da história. Ou seja, o diálogo entre Bíblia e realidade, que possibilitaria a circularidade hermenêutica é negado apriosticamente.

Os Batistas têm contribuído grandemente, mais do que qualquer outro grupo, ao
fortalecimento do princípio anti-tradicional (...). Através dos séculos os Batistas
têm proclamado as Escrituras como sendo a última autoridade para todas as ques-
toes de fé. De fato a forma de governo “congregacional” da Igreja Batista insiste
na liberdade de interpretação de cada indivíduo .

Esse processo de privatização da interpretação bíblica não é acidental, antes, é constitutivo dos Batistas, e como estamos propondo, os evangélicos brasileiros.

Em casos de diferença de interpretação bíblica, cada igreja batista tem que ler e
interpretar a Bíblia para si mesma. De acordo com este princípio, cada igreja defi
ne sua própria maneira de proceder em questões duvidosas. Todas as igrejas ba-
tistas, porém, submetem-se à autoridade da palavra de Deus .

No próprio método de acesso à Bíblia está negado qualquer mediação que represente a comunidade de leitores. Dessa forma a Bíblia é acessada em perspectiva individual e, por decorrência, sujeita a abordagens espiritualizantes. Isso é radicalizado a partir do aporte teórico que a teologia Batista brasileira recebe do liberalismo inglês, com sua forte ênfase no individualismo.

A questão social é acomodada em uma interpretação individualista clássica anglo-saxã (...). A busca pela compreensão da doutrina, da organização e da natureza dos batistas deve tomar o princípio epistemológico do individualismo .

Essa epistemologia individualista, aplicada num ambiente teológico de negação da tradição (inclusive da tradição protestante que já havia negado o magistério eclesiástico), provoca uma descontinuidade entre a Bíblia e a realidade vivida. Isso não se dá tão radicalmente na exposição bíblica (pois aí a linguagem é atualizada), mas num passo anterior e mais fundamental, ou seja, na própria dimensão hermenêutica. À realidade busca-se dar respostas bíblicas, porém, essa realidade não é tomada como lugar teológico que empresta seu horizonte concreto onde, e só onde, a Bíblia pode ter sentido.

A desvalorização da tradição opera um duplo abandono: do legado histórico (acúmulo de sentido ou história dos efeitos), e da realidade como elemento hermenêutico. Essa desvalorização localiza a hermenêutica evangélica brasileira em um lugar ermo, afastado, deserto. Nesse sentido pode-se perceber seu maior grau de solitude e, o menor de solidariedade.

Até aqui nossa tentativa foi de evidenciar o crescente biblicismo que a igreja evangélica brasileira, vista a partir da realidade Batista, tem praticado. E ainda, que esse biblicismo não é protestante em seus postulados teológicos, nem em sua hermenêutica bíblica.

Outro ponto importante que foi desenvolvido é a descontinuidade Bíblia/realidade, que pode ser melhor observada na descontinuidade fé/vida, e ainda, individual/estrutural. Isso acontece. Ao menos em nível teológico, pela ausência de procedimentos metodológicos hermenêuticos.

Agora é necessário aprofundar essa eficiente deficiência metodológica. Faremos isso em dois momentos: observando seus resultados concretos testemunhados no cotidiano e, questionando o acesso dedutivo às Escrituras conforme se encontra na Declaração Doutrinária Batista.


3-AUSCULTANDO INDUTIVAMENTE OS EFEITOS DO DEDUTIVISMO TEOLÓGICO SOBRE A FÉ E A TEOLOGIA EVANGÉLICA BRASILEIRA.

Auscultar indutivamente o dedutivismo teológico. Isso é o que queremos fazer numa dupla aproximação, prático-teórica, ao universo evangélico brasileiro. Para realizarmos essa aproximação lançaremos mão de uma mediação textual. Numa primeira aproximação, visando perceber a particular introjeção de dedutivismo teológico, usaremos como mediador o texto da professora Tereza Cavalcanti, Quando os pobres lêem a Bíblia. Reflexões a partir da pastoral Bíblica. Na segunda aproximação, onde queremos notar certa matriz teórica do método dedutivo aplicado à Bíblia, usaremos como mediador a Declaração Doutrinária Batista, especificamente em seu artigo sobre as Escrituras .

3.1. Introjeção de um método, ou naturalização de uma hermenêutica.

Apresentando seu texto e suas intenções, Tereza Cavalcanti afirma:

O objetivo é refletir sobre a prática da Pastoral Bíblica no meio popular, partindo
da descrição de alguns fatos concretos. Procura-se identificar o sujeito de uma lei
tura bíblica que vem sendo feita na América Latina e especialmente no Brasil .

É nessa perspectiva que o texto é trabalhado: na observação do sujeito da fé apreende-se sua relação com o texto bíblico e a articulação dele com a realidade circundante. O sujeito ideal para a perspectiva teórica que orienta o texto, já está definido no primeiro parágrafo: “trata-se de um sujeito comunitário, e que vem fazendo uma experiência eclesial sempre referida, de alguma maneira, à experiência de fé do povo bíblico” .

Vale a pena destacar inicialmente a escolha da via indutiva que estrutura o texto. As conclusões são aferidas após a auscultação da experiência narrada pelos sujeitos da fé. É nesse corte metodológico que se desenvolve todo o texto. Após uma breve contextualização da pastoral bíblica Latino-americana, a autora descreve três cenas reais do cotidiano e seus conseqüentes desdobramentos. A questão de fundo nos parece ser o grau de articulação Bíblia/realidade que as cenas revelam.

A primeira e a terceira cenas apresentam duas mulheres, agentes de pastoral, uma religiosa e a outra leiga. A primeira, embora próxima existencialmente da realidade onde desenvolvesse a pastoral bíblica, diante de uma questão crucial que só sente quem de fato vive, fica sem resposta . A impossibilidade da resposta aponta para a necessária solidariedade. “Só pela vida mesma, através de gestos e atitudes, se pode responder a certos questionamentos” .

A terceira cena é plena. Diante de uma situação de calamidade, o texto apresenta uma agente da pastoral bíblica da Baixada Fluminense amplamente identificada com sua realidade. Além da dimensão diaconal da narrativa, apresenta-se também uma outra, de traços ecumênicos. Na hora da solidariedade a agente da pastoral enxerga nos outros irmãos não católicos os profetas de Deus .

Embora essas duas cenas apontem pedagogicamente para uma hermenêutica bíblica integrada, importa-nos analisar com mais atenção a segunda cena que ainda não foi exposta. Uma mulher, em via de ser despejada de sua casa que fora construída irregularmente, vive com outras duas famílias (na mesma situação) um drama que milhares de outras pessoas no Brasil experimentam cotidianamente : o abandono à própria sorte, que por vezes teima em parecer um abandono ao próprio azar.

Essa personagem tem no texto um papel fundamental. Ela é a antítese do sujeito comunitário apresentado, em maior ou menor grau, nas cenas um e três. Não é agente de pastoral, não é religiosa, nem tão pouco freqüenta o CEBI. O acesso dessa mulher do texto bíblico se dá por outras mediações, provavelmente onde o comunitário é eclipsado pelo individual.

Diante da situação iminente de despejo ela evoca o texto bíblico: “Quem se humilha será exaltado” . Quando o Oficial de Justiça retruca dizendo não a estar humilhando (...) me deixa ficar alguns dias nesta casa (...) com minha filha” . Suas súplicas foram atendidas. Porém, só as dela, já que as outras famílias foram despejadas, e por pouco tempo, pois depois também teve que sair da sua casa.

O papel teológico que essa mulher representa na narrativa é delineado por Tereza Cavalcanti de forma aguda e objetiva.

A leitura bíblica que vemos aqui é a leitura de uma frase isolada, que pode ser
aplicada a diversas situações concretas e que designa comportamentos precisos
(...) No entanto, neste caso, esse tipo de leitura traz uma satisfação passageira e limitada .

Falando ainda sobre a personagem e sua leitura, ela continua:

Seu movimento no episódio foi individual: as outras famílias foram despejadas
naquele mesmo dia (...) Para Dona Maria, a Bíblia era um livro de conselhos e
ensinamentos. Não era um livro que conta a história de um povo, lutando para li-
bertar-se da injustiça e da escravidão .

Na descrição feita por Tereza Cavalcanti a pertença religiosa dessa mulher não é apresentada, porém, toda a descrição aponta para o perfil evangélico. A questão, no entanto, não é somente de uma identificação no texto da pertença religiosa. Mas a identificação, e essa está explícita, de uma relação com o texto bíblico que denuncia uma descontinuidade entre esse texto e a realidade concreta daqueles que o lêem.

Nesse sentido, essa personagem encarna a identidade evangélica brasileira, no que tange a hermenêutica bíblica. Ela mostra como o dedutivismo teológico, sobretudo em sua ação desistoricizante, é introjetado produzindo assim leituras abstratas e individualistas.

Em suma, o texto de Tereza Cavalcanti ajuda perceber os traços distintivos da hermenêutica bíblica dos evangélicos brasileiros e, possibilita ainda um bom quadro textual a partir do qual se podem inferir os processos metodológicos que o antecipa e determina.

3.2. Identificando uma matriz teórica.

Uma questão importante que precisa ser esclarecida é o que antecede a relação bíblica objetivada por Dona Maria, já que apontamos ser não só dela, mas de toda uma tradição interpretativa.

O que está por trás dessa perspectiva hermenêutica? Somado à negação de toda tradição e ao individualismo, se encontra um acesso metodológico ao texto bíblico. Esse acesso é o método dedutivo. Falando da teologia de corte dedutivo João Batista Libanio afirma:

Ela (...) foi-se enrijecendo, assumindo caráter abstrato, a-histórico, formal a auto
ritativo. Transformou-se em poderoso instrumento da autoridade (...). Sua proxi-
midade com o magistério eclesiástico foi tal que ela assumiu certo ar de oficialidade, e mutabilidade, universalidade (...). A teologia dedutiva, numa palavra, nasceu, teve vigência, prosperou numa sociedade de cristandade .

Um método científico, quando aplicado a um objeto deixa nele suas marcas, determinando-o por vezes. O método dedutivo com seu conjunto de características indicado por João Batista Libanio (abstrato, a-histórico, autoritativo, imutável, universal...), uma vez aplicado à Bíblia, formata uma hermenêutica e, a partir dela, o texto bíblico fica seguimentado possibilitando apenas determinado conjunto de interpretações.

A leitura da Dona Maria não é acidental. Antes, ela opera num universo de leituras possíveis. Antes de o texto bíblico ser questionado as respostas já foram selecionadas. A Bíblia possibilitará um caminho dentre aqueles que compõem a reserva do conjunto selecionado a partir dos valores e características do método dedutivo. Isso significa que a Bíblia é antecedida por uma estrutura epstêmico-ideológica que faz dela o instrumento de autoridade para sua reprodução. Para exemplificar o que estamos dizendo, vamos transcrever o artigo sobre as Escrituras Sagradas da declaração doutrinária da Convenção Batista Brasileira, buscando observar nela duas características: o quadro geral e o papel que a Bíblia aí desenvolve, e, a sobreposição dos conteúdos doutrinários em relação ao texto mesmo da Bíblia.

Artigo primeiro da Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira: Escrituras Sagradas .

1. A Bíblia é a palavra de Deus em linguagem humana.
2. É o registro da revelação que Deus fez de si aos homens.
3. Sendo Deus seu verdadeiro autor, foi escrita por homens inspirados e dirigidos pelo Espírito Santo.
4. Tem por finalidade revelar os propósitos de Deus, levar os pecadores à salvação, edificar os crentes, e promover a glória de Deus.
5. Seu conteúdo é a verdade, sem mescla de erro, e por isso é um perfeito tesouro de instrução divina.
6. Revela o destino final do mundo e os critérios pólos quais Deus julgará todos os homens.
7. A Bíblia é a autoridade única em matéria de religião, fiel padrão pelo qual devem ser aferidas as doutrinas e a conduta dos homens.
8. Ela deve ser interpretada sempre à luz da pessoa e dos ensinos de Jesus Cristo.

1. Sal. 119:89; Heb. 1:1,2; Is. 40:8; Mat. 24:35; Luc. 24:44,45; João. 10:35; Rom. 3:2; IPed. 1:25; IIPed. 1:21
2. Is. 40:8; Mat. 22:29; Heb. 1:1,2; Mat. 24:35; Luc. 24:44,45; 16:29; Rom. 16:25,26; IPed. 1:25
3. Ex. 24:4; IISam. 23:2; At. 3:21; IIPed. 1:21
4. Luc. 16:29; Rom. 1:16; II Tim. 3:16,17; I Ped. 22; Heb. 4:12; Ef. 6:17; Rom. 15:4
5. Sal. 19:7-9; 119:105; Prov. 30:5; João. 10:35; 17:17; Rom. 3:4; 15:4; I Tim. 3:15:17
6. João. 12:47,48; Rom. 2:12,13
7. II Crôn. 24:19; Sal. 19:7-9; Is. 34:16; Mat. 5:17,18; Is. 8:2; At. 17:11; Gal. 6:16; Fil. 3:16; II Tim. 1:13
8. Luc. 24:44,45; Mat. 5:22,28,32,34,39; 17:5; 11:29,30; João. 5:39,40; Heb. 1:1,2; João. 1:1,2,14

Em primeiro lugar, queremos perceber o quadro geral do artigo sobre as Escrituras Sagradas, e, o papel que estas representam aí. Antes, porém, é preciso dizer que é dessa mesma forma que transcrevemos que o texto se encontra na declaração doutrinária.

A estética do texto, sua forma de apresentação, já indica uma perspectiva metodológica. Um artigo sobre as Escrituras Sagradas trazem-nas somente no rodapé. Há claramente uma superposição da doutrina em relação à Bíblia. A doutrina, que é a instância que se pretende universal e imutável, é colocada acima (literalmente) da narrativa bíblica, onde de fato encontramos a fé vivida concretamente.

Não há dúvida, portanto, que do ponto de vista da estrutura do texto, o universal se sobrepõe ao particular. Essa observação, que aqui estamos chamando de estética do texto ou estrutura do texto, não é corolária, antes, é fundamental. Nela percebemos o papel representado pela Bíblia: servir de texto prova para a doutrina. Submete-se o particular para a afirmação do universal.

Essa primeira característica de nossa observação já aponta para a segunda. A sobreposição do doutrinário em relação à Bíblia está implícita na estética do texto. Um exercício que comprovaria essa segunda característica, é a leitura comparativa entre cada ponto do artigo seguido dos textos bíblicos citados em referência a ele. Esse exercício certamente revelaria a ausência de qualquer abordagem exegética no trato com a Bíblia.

A questão não é discutir a seriedade das afirmações do artigo, mas, o procedimento metodológico com relação à leitura da Bíblia. Por que esse procedimento se desdobra no ensino das Escrituras, na pregação e, inclusive no testemunho da Dona Maria. Mesmo que os conteúdos não sejam internalizados, os meios de acesso à Bíblia são. E é exatamente isso que constitui a hermenêutica evangélica brasileira.

A Bíblia quando lida, o é a partir de um conjunto de possibilidades controladas pelo acesso dedutivo. A afirmação A Bíblia é a única regra de fé e prática, deve ser substituída por A Bíblia (mediada dedutivamente) é a única regra (controlada) de fé e prática (escolhida por procedimentos universais e a-históricos). Isso faz alguma diferença!

Após essa tentativa de explicitação metodológica da hermenêutica evangélica brasileira, e sua incidência direta na vivência da fé, geradora de descontinuidade Bíblia/realidade, pretendemos apontar alguns elementos da leitura popular da Bíblia capazes de contribuir para sua superação. A aplicação desses elementos supõe, porém, uma crítica radical ao método dedutivo, que em si impossibilita qualquer leitura de caráter particular, como é o caso da leitura popular.

4. A BÍBLIA NA COMUNIDADE COMO REGRA DE FÉ E PRÁTICA: CONTRIBUIÇÕES DA LEITURA POPULAR DA BÍBLIA.

Queremos acolher as contribuições metodológicas que nos pode dar a leitura popular da Bíblia, compreendendo que a superação de uma abordagem abstrata-universalizante provocadora de certa leitura que se encontra em descontinuidade com a realidade concreta, só poderá ser feita em nível metodológico.

Para nos auxiliar nesse intento, lançamos mão do texto sobre a leitura popular da Bíblia de Carlos Mesters e Francisco Orofino . Como já vimos o acesso metodológico ao texto bíblico marca a leitura deste. O método já seleciona os caminhos de acesso, marcando com certa especificidade as interpretações. É na dimensão do método, portanto, que se dá o corte epistemológico instaurador da hermenêutica.

Na leitura que as comunidades fazem da Bíblia, apesar das diferenças próprias de cada país ou região, existe um método, cujas características básicas são comuns a todos. Um método é muito mais do que só umas técnicas e dinâmicas. É uma atitude que se toma frente à Bíblia e frente à própria vida .

Esse método ao qual se referem Mesters e Orofino é o que estrutura a leitura popular da Bíblia, que eles também chamam de “o método dos pobres” . Ele estabelece três critérios que julgamos constitutivos numa abordagem hermenêutica que pretenda superar o dedutivismo metodológico presente na hermenêutica evangélica brasileira. Os critérios são os seguintes:

1. Os pobres levam consigo, para dentro da Bíblia, os problemas da sua vida. Lê- em a Bíblia a partir da sua luta e de sua Realidade.
2. A leitura é feita em Comunidade. É, antes de tudo, uma leitura comunitária, u-
ma prática orante, um ato de fé.
3. Eles fazem uma leitura obediente: respeitam o Texto e se colocam à escuta do
que Deus tem a dizer, dispostos a mudar se Ele o exigir .

Texto, Comunidade e Realidade se articulam no propósito de escutar Deus hoje . Dessa forma, supera-se a descontinuidade Bíblia/realidade no interior da hermenêutica. Texto, Comunidade e Realidade são instâncias cooperadoras na tarefa do discernimento teológico, ou seja, na tarefa de tornar compreensível a voz de Deus para os homens e mulheres de determinado tempo e lugar.

Torna-se possível, dessa forma, encerrar o processo de solitude no qual a Bíblia é submetida pela hermenêutica evangélica brasileira. A Bíblia não precisa, e nem deve estar só. Pois, essa solitude em que ela é enclausurada, significa o afastamento do fiel de sua realidade concreta. O crescimento da solitude é a diminuição da solidariedade.

É preciso, portanto, superar a máxima A Bíblia é a única regra de fé e prática, por uma outra mais abrangente: Bíblia, na Comunidade, é regra de fé e prática sobre a Realidade. Como dizem Mesters e Orofino acerca do papel da Bíblia na dimensão da leitura popular:

Aparecem com maior clareza a função e os limites da Bíblia. Os limites são estes:
a Bíblia não é fim em si mesma, mas está a serviço da interpretação da vida. Sozi
nha ela não funciona e não consegue abrir os olhos, pois o que abre os olhos é a
partilha do pão, o gesto comunitário. A Bíblia deve ser interpretada dentro de um
processo mais amplo, que leva em conta a comunidade e a realidade. A Bíblia é
o coração: quando é arrancado fora do corpo da comunidade e da vida do povo, morre e faz morrer!

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Documento.

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