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CENTRALIDADE
BÍBLICA NO DESCOMPASSO DA HISTÓRIA.
UM OLHAR SOBRE A RELAÇÃO BÍBLIA/REALIDADE EM
PERSPECTIVA EVANGÉLICA A PARTIR DOS BATISTAS BRASILEIROS.
Alessandro
Rodrigues Rocha
1-INTRODUÇÃO
Queremos
tomar um par de óculos nas mãos, para ler um pouco
das relações que parte dos cristãos tem com
a Bíblia nessa nossa pátria brasileira. Os óculos
têm diferentes graus em suas lentes: uma das lentes permite
ver com clareza a Bíblia e, com isso, ela é colocada
devidamente em seu lugar. A outra lente, bastante desfocada, atrapalha
o olhar sobre a realidade, não permitindo uma adequada visão
acerca dela.
Como
tudo aquilo que não é bem visto acaba sendo evitado,
a realidade é colocada de lado. Como resultado dessa visão
desfocada, acontece um descompasso entre a Bíblia (vista
com a lente ajustada) e a Realidade (olhada de forma distorcida
pela lente velha e gasta). Esse descompasso estabelece uma descontinuidade
entre um e outro, gerando certa ‘esquizofrenia’, onde
o crido não consegue ser vivido.
É
exatamente o conteúdo denso dessa metáfora que queremos
aprofundar em nosso texto. Para isso, buscaremos entender as origens
desse descompasso, seus momentos de maior tensão, seus desdobramentos
na fé cristã evangélica brasileira e, alguns
possíveis elementos que possibilitem a superação
desse ‘problema de visão’.
2-
A BÍBLIA E OS EVANGÉLICOS: ENTRE O CRESCIMENTO DA
SOLITUDE E A DIMINUIÇÃO DA SOLIDARIEDADE.
Historicamente
os evangélicos no Brasil foram cognominados “os Bíblias”.
O que intencionalmente era dito como xingamento, era recebido como
reconhecimento da mais fundamental característica de sua
identidade: centralidade e autoridade plena da Bíblia para
a vida dos fiéis.
Ninguém
duvidaria desse distintivo na identidade evangélica brasileira.
O que, porém, não está objetivamente claro
nessa primeira observação, é a continuidade
e a descontinuidade que essa centralidade do texto bíblico
guarda com a vida concreta, vivida nesse solo brasileiro.
A
pergunta é simples: quanto essa centralidade da Bíblia
na vida dos fiéis toca na centralidade da vida mesma? Ou
ainda, quanto a vida onde a Bíblia é entronizada corresponde
à vida concreta onde os dramas reais são vividos?
Há continuidade ou descontinuidade entre a “vida da
Bíblia” e a “vida dos fiéis”?
Essas
são questões hermenêuticas, que podem desnudar
o eixo da relação entre evangélicos e o texto
bíblico. Nossa tese é que essa relação
(evangélicos brasileiros e texto bíblico) padece de
um descompasso, onde a vida que a Bíblia é central,
não é a vida mesma do povo, antes, é uma projeção,
por vezes chamada vida espiritual.
Esse
descompasso quer ser percebido na fé evangélica brasileira,
a partir da escolha de uma de suas denominação: os
Batistas. Essa escolha justifica-se de dois modos: em primeiro lugar
por uma questão de delimitação e, em segundo
lugar, pela distinção que os eles têm nessa
ênfase da centralidade da Bíblia na vida dos fiéis.
Dessa forma diríamos que podem representar certa matriz da
hermenêutica evangélica brasileira.
Para
desenvolvermos nossa tese, faremos um itinerário que nos
levará do crescimento da solitude, à diminuição
da solidariedade. Esse itinerário é, por assim dizer,
uma metáfora da relação dos protestantes com
o texto bíblico e a tradição . Partiremos do
princípio basilar da Reforma Protestante – Sola Scriptura
- até a máxima doutrinária dos Batistas –
a Bíblia como única regra da fé e prática
-, buscando evidenciar o gradual rompimento que a hermenêutica
bíblica evangélica provocou na relação
entre texto e leitor.
2.1.
Sola Scriptura: Início da Solitude como afastamento do Magistério
Eclesiástico.
A
história da hermenêutica protestante é marcada
por uma radical centralidade da Bíblia como regra última
para sua própria interpretação. A Bíblia
deve ser interpretada por ela mesma. É como afirma o próprio
Lutero: “A Escritura é, pois, sua própria luz.
É uma coisa grandiosa quando a Escritura interpreta a si
mesma” .
Formulado
em perspectiva negativa, esse princípio estabelece uma crítica
à Teologia católica medieval, sobretudo, ao magistério
eclesiástico como instância interpretativa das Escrituras.
Em seu texto “A Nobreza Cristã da nação
Alemã”, Lutero ataca o que chama de Segunda Muralha
(das três existentes) que precisa ser destruída.
Querem ser mestres da Escritura, ainda que, durante toda a sua vida,
não a estu-
dam. Atrevem-se a atribuir apenas a si próprios a autoridade;
fazem-nos crer com
palavras desavergonhadas que o papa não poderia errar em
questão de fé (...). É
por isso que se acham no direito canônico tantas leis heréticas
e não-cristãs (...).
Se assim fosse, qual seria a necessidade ou a utilidade da Sagrada
Escritura?
É
verdade, que esse posicionamento de Lutero provocou algum distanciamento
da Bíblia em relação a outras instâncias
de autoridade hermenêutica. Porém, isso precisa ser
mensurado em limites mais precisos. Esse princípio hermenêutico
de Lutero - a Bíblia é seu próprio intérprete
- deve ser compreendido em relação ao magistério,
não à tradição.
É
por isso que dizemos que na Reforma Protestante há o início
da solitude hermenêutica. Esse princípio luterano afastou
a hermenêutica bíblica de uma das instâncias
de autoridade estabelecidas na teologia até então.
Certamente isso se deu para a preservação da centralidade
da Bíblia para a fé cristã, porém, não
se pode negar que a hermenêutica bíblica perdeu um
canal de diálogo com realidades externas de autoridade que
por vezes representavam a sociedade.
O
que importa nesse momento, porém, é mostrar que o
princípio hermenêutico estabelecido por Lutero, não
isolou totalmente a Bíblia das instâncias históricas
e sociais. Ele não rompeu com outra coisa, senão,
com o magistério eclesiástico. Mesmo colocada assimetricamente
no horizonte teológico, a hermenêutica luterana preservou
a tradição como fonte para a teologia.
Sola Scriptura não era nuda scriptura. Nunca era simplesmente
uma questão de
Escritura ou tradição, Escritura Sagrada ou Igreja
Sagrada. A suficiência das
das Escrituras funcionava no contexto em que a Bíblia era
reconhecida como livro dado à Igreja (...). A Igreja, longe
de ter prioridade sobre as Escrituras, é na verdade criação
das Escrituras, nascidas no ventre das Escrituras .
Não
há, portanto, um enclausuramento hermenêutico nas páginas
amareladas da Bíblia. Como afirma Carl Braaten: “Tal
ênfase na soberania da Escritura não implicava a rejeição
da tradição da Igreja. Não se tratava de um
biblicismo exclusivo, que não deixasse espaço para
os credos, dogmas e tradições clássicas da
Igreja” .
Nossa
insistência nesse ponto fundamenta-se na preocupação
de evidênciar que não houve um rompimento entre a leitura
da Bíblia feita na Reforma, e a tradição teológica
acumulada ao longo da história cristã. Essa percepção
indica que não houve uma descontinuidade entre Bíblia
e história, entre Bíblia e sociedade.
No
princípio hermenêutico de Lutero não há
lugar para o divórcio entre a Bíblia em si e as interpretações
vitais feitas a partir dela ao longo da história. A interpretação
da Bíblia a partir da própria Bíblia não
nega o sentido da comunidade que a lê. Já que todo
sentido é também daquele que lê. Dessa forma
poderia se dizer que a Bíblia lida é o próprio
intérprete da Bíblia lida. Na preservação
da tradição como fonte teológica (mesmo que
segunda) está a continuidade entre Bíblia realidade.
É
possível dizer que a hermenêutica bíblica apresentada
por Lutero inicia um processo de solitude, já que se afasta
da instância magisterial (de suas distorções,
mas também de suas contribuições), mas ainda
não impede a solidariedade entre a Bíblia e a realidade
vivida na sociedade que a lê.
2.2.
A Bíblia como única regra de fé e prática
ou a Bíblia recolhida a lugares ermos. Solitude como afastamento
da tradição.
A
máxima A Bíblia é a única regra de fé
e prática é um distintivo dos batistas desde a sua
origem. A declaração doutrinária de 1677 já
afirmava:
A Escritura Sagrada é a única regra suficiente, certa
e infalível de todo o conheci-
mento, fé e obediência para a Salvação.
Embora a luz da natureza e as obras da
criação e providência manifestam a bondade,
sabedoria e poder de Deus, não são suficientes para
dar esse conhecimento de Deus e da sua vontade, necessário
para a salvação (...)Todo o conselho de Deus acerca
de todas as coisas necessárias para sua glória, salvação
dos homens, fé e vida, está expressamente estabelecido
ou necessariamente contido na Escritura Sagrada, nada devendo a
ela ser acrescentado, seja uma nova revelação do Espírito
ou tradições de homens (...) A regra infalível
de interpretação da Escritura é a própria
Escritura .
Essa
declaração, bem como a máxima que encerra,
embora clara, precisa ser verificada a partir da auto-compreensão
Batista sobre sua identidade. Da mesma forma que sua relação
com instâncias teológicas outras. Só dessa maneira
poderemos compreender a hermenêutica bíblica Batista.
A
auto-compreensão Batista acerca de sua origem e identidade,
é um elemento importante para perceber o quanto eles representam
o movimento evangélico brasileiro . Há uma descontinuidade
histórica, em nível prático, com a reforma
protestante e com seus postulados teológicos. Vejamos alguns
elementos:
O Luteranismo e as Igrejas presbiterianas e reformadas eram de muitas
maneiras
continuação da Igreja Católica nas suas respectivas
terras (...). Na mesma época
havia um outro tipo de protestantismo, mais radical do que os movimentos
acima
mencionados (...). Em geral, procuravam aceitar apenas as Escrituras
e especial-
mente o Novo Testamento como sendo sua autoridade final. Tinham
a tendência
de descartar tudo que não era expressamente citado na Bíblia
.
A
identidade Batista é originária dessa distinção
com os movimentos primeiros da Reforma. Distingue-se, portanto,
duas correntes históricas diferentes acerca da origem dos
batistas:
Alguns historiadores Batistas destacam a possível influência
dos Anabatistas e
Mennonistas do continente. Algum relacionamento entre os Batistas
e os Anaba-
tistas da Inglaterra é inegável.
Outros historiadores Batistas afirmam que os Batistas da Inglaterra
surgiram dire-
tamente do Novo Testamento, citando os movimentos revolucionários
de séculos
anteriores...
Desse
ponto podemos extrair aquilo que talvez seja o elemento comum aos
evangélicos brasileiros: uma relação imediata
com o Novo Testamento, e sua decorrente negação da
tradição cristã como fonte para a teologia.
Isso significa, em última análise, uma negação
de diálogo entre o texto bíblico e os conteúdos
acumulados das interpretações feitas pelos cristãos
ao longo da história. Ou seja, o diálogo entre Bíblia
e realidade, que possibilitaria a circularidade hermenêutica
é negado apriosticamente.
Os Batistas têm contribuído grandemente, mais do que
qualquer outro grupo, ao
fortalecimento do princípio anti-tradicional (...). Através
dos séculos os Batistas
têm proclamado as Escrituras como sendo a última autoridade
para todas as ques-
toes de fé. De fato a forma de governo “congregacional”
da Igreja Batista insiste
na liberdade de interpretação de cada indivíduo
.
Esse
processo de privatização da interpretação
bíblica não é acidental, antes, é constitutivo
dos Batistas, e como estamos propondo, os evangélicos brasileiros.
Em casos de diferença de interpretação bíblica,
cada igreja batista tem que ler e
interpretar a Bíblia para si mesma. De acordo com este princípio,
cada igreja defi
ne sua própria maneira de proceder em questões duvidosas.
Todas as igrejas ba-
tistas, porém, submetem-se à autoridade da palavra
de Deus .
No
próprio método de acesso à Bíblia está
negado qualquer mediação que represente a comunidade
de leitores. Dessa forma a Bíblia é acessada em perspectiva
individual e, por decorrência, sujeita a abordagens espiritualizantes.
Isso é radicalizado a partir do aporte teórico que
a teologia Batista brasileira recebe do liberalismo inglês,
com sua forte ênfase no individualismo.
A questão social é acomodada em uma interpretação
individualista clássica anglo-saxã (...). A busca
pela compreensão da doutrina, da organização
e da natureza dos batistas deve tomar o princípio epistemológico
do individualismo .
Essa
epistemologia individualista, aplicada num ambiente teológico
de negação da tradição (inclusive da
tradição protestante que já havia negado o
magistério eclesiástico), provoca uma descontinuidade
entre a Bíblia e a realidade vivida. Isso não se dá
tão radicalmente na exposição bíblica
(pois aí a linguagem é atualizada), mas num passo
anterior e mais fundamental, ou seja, na própria dimensão
hermenêutica. À realidade busca-se dar respostas bíblicas,
porém, essa realidade não é tomada como lugar
teológico que empresta seu horizonte concreto onde, e só
onde, a Bíblia pode ter sentido.
A
desvalorização da tradição opera um
duplo abandono: do legado histórico (acúmulo de sentido
ou história dos efeitos), e da realidade como elemento hermenêutico.
Essa desvalorização localiza a hermenêutica
evangélica brasileira em um lugar ermo, afastado, deserto.
Nesse sentido pode-se perceber seu maior grau de solitude e, o menor
de solidariedade.
Até
aqui nossa tentativa foi de evidenciar o crescente biblicismo que
a igreja evangélica brasileira, vista a partir da realidade
Batista, tem praticado. E ainda, que esse biblicismo não
é protestante em seus postulados teológicos, nem em
sua hermenêutica bíblica.
Outro
ponto importante que foi desenvolvido é a descontinuidade
Bíblia/realidade, que pode ser melhor observada na descontinuidade
fé/vida, e ainda, individual/estrutural. Isso acontece. Ao
menos em nível teológico, pela ausência de procedimentos
metodológicos hermenêuticos.
Agora
é necessário aprofundar essa eficiente deficiência
metodológica. Faremos isso em dois momentos: observando seus
resultados concretos testemunhados no cotidiano e, questionando
o acesso dedutivo às Escrituras conforme se encontra na Declaração
Doutrinária Batista.
3-AUSCULTANDO INDUTIVAMENTE OS EFEITOS DO DEDUTIVISMO TEOLÓGICO
SOBRE A FÉ E A TEOLOGIA EVANGÉLICA BRASILEIRA.
Auscultar
indutivamente o dedutivismo teológico. Isso é o que
queremos fazer numa dupla aproximação, prático-teórica,
ao universo evangélico brasileiro. Para realizarmos essa
aproximação lançaremos mão de uma mediação
textual. Numa primeira aproximação, visando perceber
a particular introjeção de dedutivismo teológico,
usaremos como mediador o texto da professora Tereza Cavalcanti,
Quando os pobres lêem a Bíblia. Reflexões a
partir da pastoral Bíblica. Na segunda aproximação,
onde queremos notar certa matriz teórica do método
dedutivo aplicado à Bíblia, usaremos como mediador
a Declaração Doutrinária Batista, especificamente
em seu artigo sobre as Escrituras .
3.1.
Introjeção de um método, ou naturalização
de uma hermenêutica.
Apresentando
seu texto e suas intenções, Tereza Cavalcanti afirma:
O objetivo é refletir sobre a prática da Pastoral
Bíblica no meio popular, partindo
da descrição de alguns fatos concretos. Procura-se
identificar o sujeito de uma lei
tura bíblica que vem sendo feita na América Latina
e especialmente no Brasil .
É
nessa perspectiva que o texto é trabalhado: na observação
do sujeito da fé apreende-se sua relação com
o texto bíblico e a articulação dele com a
realidade circundante. O sujeito ideal para a perspectiva teórica
que orienta o texto, já está definido no primeiro
parágrafo: “trata-se de um sujeito comunitário,
e que vem fazendo uma experiência eclesial sempre referida,
de alguma maneira, à experiência de fé do povo
bíblico” .
Vale
a pena destacar inicialmente a escolha da via indutiva que estrutura
o texto. As conclusões são aferidas após a
auscultação da experiência narrada pelos sujeitos
da fé. É nesse corte metodológico que se desenvolve
todo o texto. Após uma breve contextualização
da pastoral bíblica Latino-americana, a autora descreve três
cenas reais do cotidiano e seus conseqüentes desdobramentos.
A questão de fundo nos parece ser o grau de articulação
Bíblia/realidade que as cenas revelam.
A
primeira e a terceira cenas apresentam duas mulheres, agentes de
pastoral, uma religiosa e a outra leiga. A primeira, embora próxima
existencialmente da realidade onde desenvolvesse a pastoral bíblica,
diante de uma questão crucial que só sente quem de
fato vive, fica sem resposta . A impossibilidade da resposta aponta
para a necessária solidariedade. “Só pela vida
mesma, através de gestos e atitudes, se pode responder a
certos questionamentos” .
A
terceira cena é plena. Diante de uma situação
de calamidade, o texto apresenta uma agente da pastoral bíblica
da Baixada Fluminense amplamente identificada com sua realidade.
Além da dimensão diaconal da narrativa, apresenta-se
também uma outra, de traços ecumênicos. Na hora
da solidariedade a agente da pastoral enxerga nos outros irmãos
não católicos os profetas de Deus .
Embora
essas duas cenas apontem pedagogicamente para uma hermenêutica
bíblica integrada, importa-nos analisar com mais atenção
a segunda cena que ainda não foi exposta. Uma mulher, em
via de ser despejada de sua casa que fora construída irregularmente,
vive com outras duas famílias (na mesma situação)
um drama que milhares de outras pessoas no Brasil experimentam cotidianamente
: o abandono à própria sorte, que por vezes teima
em parecer um abandono ao próprio azar.
Essa
personagem tem no texto um papel fundamental. Ela é a antítese
do sujeito comunitário apresentado, em maior ou menor grau,
nas cenas um e três. Não é agente de pastoral,
não é religiosa, nem tão pouco freqüenta
o CEBI. O acesso dessa mulher do texto bíblico se dá
por outras mediações, provavelmente onde o comunitário
é eclipsado pelo individual.
Diante
da situação iminente de despejo ela evoca o texto
bíblico: “Quem se humilha será exaltado”
. Quando o Oficial de Justiça retruca dizendo não
a estar humilhando (...) me deixa ficar alguns dias nesta casa (...)
com minha filha” . Suas súplicas foram atendidas. Porém,
só as dela, já que as outras famílias foram
despejadas, e por pouco tempo, pois depois também teve que
sair da sua casa.
O
papel teológico que essa mulher representa na narrativa é
delineado por Tereza Cavalcanti de forma aguda e objetiva.
A leitura bíblica que vemos aqui é a leitura de uma
frase isolada, que pode ser
aplicada a diversas situações concretas e que designa
comportamentos precisos
(...) No entanto, neste caso, esse tipo de leitura traz uma satisfação
passageira e limitada .
Falando
ainda sobre a personagem e sua leitura, ela continua:
Seu movimento no episódio foi individual: as outras famílias
foram despejadas
naquele mesmo dia (...) Para Dona Maria, a Bíblia era um
livro de conselhos e
ensinamentos. Não era um livro que conta a história
de um povo, lutando para li-
bertar-se da injustiça e da escravidão .
Na
descrição feita por Tereza Cavalcanti a pertença
religiosa dessa mulher não é apresentada, porém,
toda a descrição aponta para o perfil evangélico.
A questão, no entanto, não é somente de uma
identificação no texto da pertença religiosa.
Mas a identificação, e essa está explícita,
de uma relação com o texto bíblico que denuncia
uma descontinuidade entre esse texto e a realidade concreta daqueles
que o lêem.
Nesse
sentido, essa personagem encarna a identidade evangélica
brasileira, no que tange a hermenêutica bíblica. Ela
mostra como o dedutivismo teológico, sobretudo em sua ação
desistoricizante, é introjetado produzindo assim leituras
abstratas e individualistas.
Em
suma, o texto de Tereza Cavalcanti ajuda perceber os traços
distintivos da hermenêutica bíblica dos evangélicos
brasileiros e, possibilita ainda um bom quadro textual a partir
do qual se podem inferir os processos metodológicos que o
antecipa e determina.
3.2.
Identificando uma matriz teórica.
Uma
questão importante que precisa ser esclarecida é o
que antecede a relação bíblica objetivada por
Dona Maria, já que apontamos ser não só dela,
mas de toda uma tradição interpretativa.
O
que está por trás dessa perspectiva hermenêutica?
Somado à negação de toda tradição
e ao individualismo, se encontra um acesso metodológico ao
texto bíblico. Esse acesso é o método dedutivo.
Falando da teologia de corte dedutivo João Batista Libanio
afirma:
Ela (...) foi-se enrijecendo, assumindo caráter abstrato,
a-histórico, formal a auto
ritativo. Transformou-se em poderoso instrumento da autoridade (...).
Sua proxi-
midade com o magistério eclesiástico foi tal que ela
assumiu certo ar de oficialidade, e mutabilidade, universalidade
(...). A teologia dedutiva, numa palavra, nasceu, teve vigência,
prosperou numa sociedade de cristandade .
Um
método científico, quando aplicado a um objeto deixa
nele suas marcas, determinando-o por vezes. O método dedutivo
com seu conjunto de características indicado por João
Batista Libanio (abstrato, a-histórico, autoritativo, imutável,
universal...), uma vez aplicado à Bíblia, formata
uma hermenêutica e, a partir dela, o texto bíblico
fica seguimentado possibilitando apenas determinado conjunto de
interpretações.
A
leitura da Dona Maria não é acidental. Antes, ela
opera num universo de leituras possíveis. Antes de o texto
bíblico ser questionado as respostas já foram selecionadas.
A Bíblia possibilitará um caminho dentre aqueles que
compõem a reserva do conjunto selecionado a partir dos valores
e características do método dedutivo. Isso significa
que a Bíblia é antecedida por uma estrutura epstêmico-ideológica
que faz dela o instrumento de autoridade para sua reprodução.
Para exemplificar o que estamos dizendo, vamos transcrever o artigo
sobre as Escrituras Sagradas da declaração doutrinária
da Convenção Batista Brasileira, buscando observar
nela duas características: o quadro geral e o papel que a
Bíblia aí desenvolve, e, a sobreposição
dos conteúdos doutrinários em relação
ao texto mesmo da Bíblia.
Artigo
primeiro da Declaração Doutrinária da Convenção
Batista Brasileira: Escrituras Sagradas .
1.
A Bíblia é a palavra de Deus em linguagem humana.
2. É o registro da revelação que Deus fez de
si aos homens.
3. Sendo Deus seu verdadeiro autor, foi escrita por homens inspirados
e dirigidos pelo Espírito Santo.
4. Tem por finalidade revelar os propósitos de Deus, levar
os pecadores à salvação, edificar os crentes,
e promover a glória de Deus.
5. Seu conteúdo é a verdade, sem mescla de erro, e
por isso é um perfeito tesouro de instrução
divina.
6. Revela o destino final do mundo e os critérios pólos
quais Deus julgará todos os homens.
7. A Bíblia é a autoridade única em matéria
de religião, fiel padrão pelo qual devem ser aferidas
as doutrinas e a conduta dos homens.
8. Ela deve ser interpretada sempre à luz da pessoa e dos
ensinos de Jesus Cristo.
1. Sal. 119:89; Heb. 1:1,2; Is. 40:8; Mat. 24:35; Luc. 24:44,45;
João. 10:35; Rom. 3:2; IPed. 1:25; IIPed. 1:21
2. Is. 40:8; Mat. 22:29; Heb. 1:1,2; Mat. 24:35; Luc. 24:44,45;
16:29; Rom. 16:25,26; IPed. 1:25
3. Ex. 24:4; IISam. 23:2; At. 3:21; IIPed. 1:21
4. Luc. 16:29; Rom. 1:16; II Tim. 3:16,17; I Ped. 22; Heb. 4:12;
Ef. 6:17; Rom. 15:4
5. Sal. 19:7-9; 119:105; Prov. 30:5; João. 10:35; 17:17;
Rom. 3:4; 15:4; I Tim. 3:15:17
6. João. 12:47,48; Rom. 2:12,13
7. II Crôn. 24:19; Sal. 19:7-9; Is. 34:16; Mat. 5:17,18; Is.
8:2; At. 17:11; Gal. 6:16; Fil. 3:16; II Tim. 1:13
8. Luc. 24:44,45; Mat. 5:22,28,32,34,39; 17:5; 11:29,30; João.
5:39,40; Heb. 1:1,2; João. 1:1,2,14
Em
primeiro lugar, queremos perceber o quadro geral do artigo sobre
as Escrituras Sagradas, e, o papel que estas representam aí.
Antes, porém, é preciso dizer que é dessa mesma
forma que transcrevemos que o texto se encontra na declaração
doutrinária.
A
estética do texto, sua forma de apresentação,
já indica uma perspectiva metodológica. Um artigo
sobre as Escrituras Sagradas trazem-nas somente no rodapé.
Há claramente uma superposição da doutrina
em relação à Bíblia. A doutrina, que
é a instância que se pretende universal e imutável,
é colocada acima (literalmente) da narrativa bíblica,
onde de fato encontramos a fé vivida concretamente.
Não
há dúvida, portanto, que do ponto de vista da estrutura
do texto, o universal se sobrepõe ao particular. Essa observação,
que aqui estamos chamando de estética do texto ou estrutura
do texto, não é corolária, antes, é
fundamental. Nela percebemos o papel representado pela Bíblia:
servir de texto prova para a doutrina. Submete-se o particular para
a afirmação do universal.
Essa
primeira característica de nossa observação
já aponta para a segunda. A sobreposição do
doutrinário em relação à Bíblia
está implícita na estética do texto. Um exercício
que comprovaria essa segunda característica, é a leitura
comparativa entre cada ponto do artigo seguido dos textos bíblicos
citados em referência a ele. Esse exercício certamente
revelaria a ausência de qualquer abordagem exegética
no trato com a Bíblia.
A
questão não é discutir a seriedade das afirmações
do artigo, mas, o procedimento metodológico com relação
à leitura da Bíblia. Por que esse procedimento se
desdobra no ensino das Escrituras, na pregação e,
inclusive no testemunho da Dona Maria. Mesmo que os conteúdos
não sejam internalizados, os meios de acesso à Bíblia
são. E é exatamente isso que constitui a hermenêutica
evangélica brasileira.
A
Bíblia quando lida, o é a partir de um conjunto de
possibilidades controladas pelo acesso dedutivo. A afirmação
A Bíblia é a única regra de fé e prática,
deve ser substituída por A Bíblia (mediada dedutivamente)
é a única regra (controlada) de fé e prática
(escolhida por procedimentos universais e a-históricos).
Isso faz alguma diferença!
Após
essa tentativa de explicitação metodológica
da hermenêutica evangélica brasileira, e sua incidência
direta na vivência da fé, geradora de descontinuidade
Bíblia/realidade, pretendemos apontar alguns elementos da
leitura popular da Bíblia capazes de contribuir para sua
superação. A aplicação desses elementos
supõe, porém, uma crítica radical ao método
dedutivo, que em si impossibilita qualquer leitura de caráter
particular, como é o caso da leitura popular.
4.
A BÍBLIA NA COMUNIDADE COMO REGRA DE FÉ E PRÁTICA:
CONTRIBUIÇÕES DA LEITURA POPULAR DA BÍBLIA.
Queremos
acolher as contribuições metodológicas que
nos pode dar a leitura popular da Bíblia, compreendendo que
a superação de uma abordagem abstrata-universalizante
provocadora de certa leitura que se encontra em descontinuidade
com a realidade concreta, só poderá ser feita em nível
metodológico.
Para
nos auxiliar nesse intento, lançamos mão do texto
sobre a leitura popular da Bíblia de Carlos Mesters e Francisco
Orofino . Como já vimos o acesso metodológico ao texto
bíblico marca a leitura deste. O método já
seleciona os caminhos de acesso, marcando com certa especificidade
as interpretações. É na dimensão do
método, portanto, que se dá o corte epistemológico
instaurador da hermenêutica.
Na leitura que as comunidades fazem da Bíblia, apesar das
diferenças próprias de cada país ou região,
existe um método, cujas características básicas
são comuns a todos. Um método é muito mais
do que só umas técnicas e dinâmicas. É
uma atitude que se toma frente à Bíblia e frente à
própria vida .
Esse
método ao qual se referem Mesters e Orofino é o que
estrutura a leitura popular da Bíblia, que eles também
chamam de “o método dos pobres” . Ele estabelece
três critérios que julgamos constitutivos numa abordagem
hermenêutica que pretenda superar o dedutivismo metodológico
presente na hermenêutica evangélica brasileira. Os
critérios são os seguintes:
1. Os pobres levam consigo, para dentro da Bíblia, os problemas
da sua vida. Lê- em a Bíblia a partir da sua luta e
de sua Realidade.
2. A leitura é feita em Comunidade. É, antes de tudo,
uma leitura comunitária, u-
ma prática orante, um ato de fé.
3. Eles fazem uma leitura obediente: respeitam o Texto e se colocam
à escuta do
que Deus tem a dizer, dispostos a mudar se Ele o exigir .
Texto,
Comunidade e Realidade se articulam no propósito de escutar
Deus hoje . Dessa forma, supera-se a descontinuidade Bíblia/realidade
no interior da hermenêutica. Texto, Comunidade e Realidade
são instâncias cooperadoras na tarefa do discernimento
teológico, ou seja, na tarefa de tornar compreensível
a voz de Deus para os homens e mulheres de determinado tempo e lugar.
Torna-se
possível, dessa forma, encerrar o processo de solitude no
qual a Bíblia é submetida pela hermenêutica
evangélica brasileira. A Bíblia não precisa,
e nem deve estar só. Pois, essa solitude em que ela é
enclausurada, significa o afastamento do fiel de sua realidade concreta.
O crescimento da solitude é a diminuição da
solidariedade.
É
preciso, portanto, superar a máxima A Bíblia é
a única regra de fé e prática, por uma outra
mais abrangente: Bíblia, na Comunidade, é regra de
fé e prática sobre a Realidade. Como dizem Mesters
e Orofino acerca do papel da Bíblia na dimensão da
leitura popular:
Aparecem com maior clareza a função e os limites da
Bíblia. Os limites são estes:
a Bíblia não é fim em si mesma, mas está
a serviço da interpretação da vida. Sozi
nha ela não funciona e não consegue abrir os olhos,
pois o que abre os olhos é a
partilha do pão, o gesto comunitário. A Bíblia
deve ser interpretada dentro de um
processo mais amplo, que leva em conta a comunidade e a realidade.
A Bíblia é
o coração: quando é arrancado fora do corpo
da comunidade e da vida do povo, morre e faz morrer!
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