Colunistas
Instituição
  .: Corpo Docente
  .: Grade Acadêmica
  .: Documentos
/.: Fotos da Instituição


Por Ricardo Luiz de Freitas
Mestre em Teologia e
Especialista em Ciências da Religião

DIACONIA: MISSÃO DA IGREJA


INTRODUÇÃO

O presente artigo tem por objetivo apresentar a diaconia como elemento fundamental da missão da igreja. Entendendo o significado do termo diakonia e a sua aplicação para a igreja de hoje realizar a sua missão seja com os membros da mesma ou aqueles que estão fora.

A igreja não pode ser entendida nela e por ela mesma, pois está a serviço de realidades que a transcendem, o Reino e o mundo. Mundo e Reino são as pilastras que sustentam todo o edifício da igreja. Em primeiro lugar apresenta-se a realidade do Reino que engloba mundo e igreja. O Reino constitui a utopia realizada no mundo (escatologia); é o fim bom da totalidade da criação em Deus finalmente liberta totalmente de toda a imperfeição e penetra pelo Divino que a realiza absolutamente. O Reino perfaz a salvação em seu estado terminal.

O mundo é o lugar da realização histórica do Reino. Na presente situação ele se encontra decadente e marcado pelo pecado; por isso o Reino de Deus se constrói contra as forças do anti-Reino; impõe-se sempre um oneroso processo de libertação para que o mundo possa acolher em si o Reino e desembocar no termo feliz.

A igreja é aquela parte do mundo que, na força do Espírito, acolheu o Reino de forma explícita na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado em nossa opressão, guarda a permanente memória e a consciência do Reino, celebra sua presença no mundo e em si mesma e detém a gramática de seu anúncio, a serviço do mundo. A igreja não é o Reino mas seu sinal e instrumento de implementação no mundo.

O Reino é a primeira e última realidade englobando todas as demais. Depois vem o mundo como o espaço da historificação do Reino e de realização da própria igreja. E por fim a igreja como realização antecipatória do Reino dentro do mundo. A igreja deve sempre aparecer como sinal concreto e histórico ( do Reino e da Salvação).

A diaconia se apresenta como algo ligado ao próprio exemplo deixado por Jesus em seu ministério e a igreja deve refletir isto em sua missão. Mas quando falamos sobre diaconia não devemos pensar apenas em ações de assistencialismo, mas em ações que reflitam a ação de Jesus, ou seja, uma mensagem integral, que procura apresentar o Reino as pessoas através de mobilização social, mas sem deixar de anunciar os princípios e valores do Reino de Deus.

Por isso quando se fala sobre diaconia não devemos pensar apenas em ação social, mas também em ações que proclamam e anunciam o Reino de Deus. È necessário que o cristão perceba que o serviço ao próximo é uma autentica vocação divina, sendo assim, uma contribuição para o cumprimento dos desígnios de Deus no mundo. O testemunho cristão poderia ser definido como “ação social”, pois o testemunho do cristão iria inserir-se na vida cotidiana de tal forma que as estruturas seriam modificadas e essa ação deveria ser tão comum quanto à obediência aos princípios do Reino.

A DIACONIA

Nos primeiros séculos da era cristã a diaconia da igreja se situava particularmente na dimensão da caridade , do servir ao outro. No Novo Testamento a palavra “diaconia” chegou a ser uma palavra chave para caracterizar a participação de todos na vida da igreja. Um bom exemplo é o apóstolo Paulo, que fala do seu ministério como “diaconia”. O conceito de “diaconia” descreve ainda no Novo Testamento a idéia de organização interna da vida comunitária, este princípio leva os membros desta comunidade a renúncia de títulos e a fraternidade que se enraíza na caridade.

Mas isto não surgiu do nada. A base principal para esta visão é o próprio ministério de Jesus Cristo, que através de seu exemplo de vida, chama a igreja para compartilhar das alegrias e esperanças, das tristezas e angústias dos homens, a igreja “recebeu a missão de anunciar o Reino de Cristo e de Deus, de estabelecê-lo em todos os povos [...].” E o próprio Cristo se apresenta como diácono: “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos”( Mc 10, 45)”

Quando Jesus se apresenta como diácono, não é apenas para si, mas é também uma ordem para a comunidade de seus seguidores e seguidoras, deste modo ele descreve o sentido de seu envio messiânico, pois este era um termo tido como indigno, destinado as pessoas de classes inferiores de sua época. Jesus ao acolher este termo apresenta uma ação radicalmente solidária com essas pessoas, que são especialmente os escravos, e as mulheres. Contudo, mais do que solidarizar-se, Jesus ordena aos seus seguidores que respeitem a todos e sejam servos de todos.

O termo diakonia demonstra um elemento do ministério da igreja
que deve ser não apenas um desejo.

A DIACONIA NA IGREJA ( Marcos 10. 43-45)

A ação diaconal da igreja deve partir de uma conscientização da ação libertadora de Jesus, ao pregar as boas novas e o evangelho do Reino Jesus apresenta um Deus que se preocupa com o homem de maneira integral, levando uma mensagem que cure a sua alma, mas também possa saciar as suas necessidade físicas. O serviço ao outro por parte dos integrantes da igreja deve ser realizado na perspectiva de levar as pessoas a compreenderem a mensagem do céu, ainda que este ainda não seja uma realidade presente neste tempo.

Isto pode ser feito através de programas específicos tais como peças teatrais, estudos que tratem sobre a missão de Jesus e a sua opção por resgatar as pessoas que viviam a margem da sociedade, pode-se ainda ter um domingo específico para que o tema diaconia seja trabalhado na igreja, com cultos que enfoquem o serviço e o amor ao próximo, a EBD e as uniões de treinamento também podem ser boas ferramentas de proclamação, anuncio e estudo sobre a mensagem integral do Reino..


Por isso o texto de Marcos 10. 43-45, é apresentado a regra para a comunidade: se alguém quer ser o primeiro, será o último e servo( diákonos ) de todos. Um das idéias que podem ser extraídas deste trecho é que a diaconia no Novo Testamento se refere à organização básica interna da vida comunitária, demonstrando que o princípio básico da autoridade interna da igreja era a fraternidade, que se enraíza na caridade e serviço caridoso.

O texto de Marcos então se apresenta como uma ordem fundamental de Jesus que tem em vista a nova comunidade de suas seguidoras e seguidores. O texto demonstra que Jesus quer requer de suas seguidoras e seguidores o discipulado na perspectiva da cruz, tendo, porém, como referência a sua própria comunidade. Nessa comunidade de seguidoras e seguidores de Jesus vale, a partir da cruz, um outro princípio do que aquele que se percebe na sociedade da época: não devem existir estruturas de dominação, mas de constante serviço ( diaconia ) mútuo.

A DIACONIA NO MUNDO

Diante do desenvolvimento do tema e da apresentação do que seria a diaconia é importante agora saber como poderíamos realizar a diaconia, a fim de que a mesma possa ser vivenciada pela igreja e demonstrada na comunidade na qual ela está inserida.

Como sugestão para a realização de uma ação diaconal da igreja, propomos 5 passos que podem ser realizados por qualquer igreja:

1) Coleta de dados do bairro;
2)Conscientizar a igreja da sua missão diaconal;
3)Elaborar os trabalhos a serem realizados, conforme a condições da igreja;
4) Escolher os líderes para estes trabalhos e;
5)Avaliar e manter os resultados obtidos com os trabalhos.

Todos os passos para a realização da ação diaconal são importantes, contudo gostaria de enfatizar um que creio eu ser fundamental, pois é a aprtir dele que todos os outros passos poderão ser realizados com uma boa base. Esse passo que creio ser fundamental é o da conscientização.

A conscientização deve ser realizada como o primeiro passo, pois esta é uma das formas mais eficientes da igreja poder participar politicamente da sociedade .

A conscientização consiste em dar uma contribuição para as pessoas perceberem que nenhum ser humano vale mais ou menos que os demais e que todos devem lutar constantemente pela conquista ou preservação da liberdade de pensar, agir e pela igualdade de oportunidades e responsabilidades. Este trabalho de conscientização pode ser exercido no plano individual, nas relações diretas com as pessoas ou falando ou escrevendo a coletividade.

“Conscientizar uma pessoa é ajudá-la a fugir da alienação e desapertá-la para o uso da razão, dado-lhe condições para que perceba as exigências morais da natureza humana.” Com o trabalho de organização poderá ser fornecido ao indivíduo idéias ou meios materiais, para que ele possa agir. Pois não basta o grupo ou o indivíduo estar plenamente consciente de que sofre injustiças ou que deve ajudar outros que passam por dificuldades é preciso organizar trabalhos que demonstrem ao indivíduo suas possibilidades.

O que deve ser demonstrado também neste processo de conscientização do trabalho diaconal, é que a motivação para a realização deste ministério, vem do próprio exemplo de Jesus Cristo, porque, através de uma espiritualidade sadia, a igreja poderá realizar a sua missão diaconal. Pois, a igreja não pode esquecer que a falta de pão na mesa do pobre pode ser uma denúncia da falta de espiritualidade no altar dos cristãos. A igreja tem o grande desafio de convocar seus membros para participarem de sua missão. Jesus soube fazer isto, chamou os doze. Informou-os da necessidade deles, pediu que O seguissem, equipou-os por meio de ensinamentos e de treinamento na prática, e engajou-os, levando-os a fazer.

Segue abaixo um texto muito interessante sobre a conscientização:

A conscientização traz consigo uma elevação do nível político dos homens:
- conscientizar é criar uma “sociedade-sujeito”;
- isso traz consigo uma auto-reflexão e uma auto-decisão (ser autores e não meros espectadores) num tempo e num espaço determinados;
- tudo isso conduz à “elevação do pensamento das massas”; e a isso podemos chamar “politização”.
A auto-reflexão leva as massas ao aprofundamento que segue à sua tomada de consciência e que tem por efeito sua inserção na História, não como espectadores, mas como autores e protagonistas. [...]
Consciência de inserção = sociedade aberta
A conscientização dos homens dá lugar a um tipo de sociedade aberta. A consciência crítica empenha-se em uma práxis libertadora.

A conscientização é a alma do processo humano da libertação. “Processo significa um conjunto de fenômenos em evolução, em movimento, em desenvolvimento. Para que estes fenômenos se convertam em um processo, faz falta uma certa coerência e uma certa unidade dinâmica entre eles... Em sentido estrito, processo humano é aquele do qual o homem toma consciência, aquele que submete à crítica, e cuja evolução ele orienta para tornar-se mais homem na liberdade, na responsabilidade e na solidariedade com os outros”.

A participação no processo de mudança da comunidade é um dever moral de todos os indivíduos e a igreja não pode se excluir desta tarefa. Todos podem exercer alguma influência, desde que tomem consciência de que não devem se conformar com as injustiças e desigualdades. Não se pode conseguir qualquer mudança profunda na sociedade se não houver antes uma mudança na consciência de cada um.

Numa comunidade diaconal, tudo depende de que cada pessoa se transforme num elo indispensável de uma corrente. Esta corrente será inquebrável, se o menor elo engrenar com firmeza também. É necessário que cada pessoa que compõe a igreja receba uma tarefa determinada dentro da comunidade, para que ela perceba que também é útil. “Toda a comunhão cristã deve saber que não apenas os fracos necessitam dos fortes, mas que também os fortes necessitam dos fracos.” A justificação pela graça e o serviço são os elementos que caracterizam a comunidade cristã.

A partir destes passos a igreja poderia realizar ações que levam as pessoas dignidade, amor, solidariedade e liberdade. Pois estes são temas de grande importância dentro da pregação de Jesus. Ao demonstrar um Reino cujo Deus está no domínio os sinais de libertação amor e fraternidade devem fazer parte da proclamação da igreja.

CONCLUSÃO

Através da diaconia percebemos que a igreja pode passar a refletir a ação de Jesus, que agia de maneira solidária e fraterna e que assim apresentava para aqueles que estavam ao seu redor o verdadeiro sentido do Reino de Deus. Um lugar onde as desigualdades não existem, a tristeza está longe e a miséria não tem espaço. A igreja deve procurar realizar através de ações concretas essa pregação que Jesus a muito já apresentava as pessoas de seu tempo. A igreja deve agir de maneira diaconal a fim de que através dela o mundo possa sentir a presença do Reino de Deus.



Buscar na Web por:
Publicidade:
Seminário Teológico Batista de Duque de Caxias.:. www.stbdc.com .:. e-mail: stbdc@stbdc.com