Culto
e Responsabilidade
Ricardo Luiz de Freitas
Mestre em Teologia
e Especialista em Ciências da Religião.
Vivemos em uma época em que o nome de Cristo tem sido usado
para muitas coisas, para ganhar dinheiro, para satisfazer egos,
para realizações financeira e materiais. Infelizmente
o nome de Cristo tem sido separado da idéia de que somos
servos de Deus, conforme afirma Paulo (Rom. 1.1)
Parece que hoje as pessoas percebem Deus como o seu garoto de recados,
onde eu peço um benção e ele deve ser obrigado
a me atender ou a buscar a minha encomenda/benção.
Isso contrária toda a idéia de relacionamento com
Deus e não há outra maneira de realizar uma liturgia
consequente/relevante se eu inverto os papéis. Mas porque
isso acontece? O que tem levado as pessoas a distorcerem a real
idéia de culto.
Procurando responder a estas perguntas e à apresentar uma
reflexão sobre uma liturgia conseqüente verificaremos
em primeiro lugar os elementos de nossa sociedade que tem contribuído
para essa inversão de valores e logo após estudaremos
os termos do Novo Testamento que nos apontam o caminho para um ato
litúrgico relevante e saudável para o nosso relacionamento
com Deus.
Fatores que distorcem o ato litúrgico
O Pós-modernismo
É a denominação aplicada às mudanças
ocorridas nas sociedades avançadas desde 1959 no âmbito
das ciências, nas artes e, quando por convenção,
se encerrou o modernismo ( 1990- 1950 ).
Nascendo com a arquitetura e a computação nos anos
50, parece que toma corpo com a arte pop nos anos 60. Cresce, ao
entrar pela filosofia, durante os anos 70, como critica da cultura
ocidental. Amadurece hoje, alastrando-se na moda, no cinema, na
música e no cotidiano programado pela tecnociência
, invadindo o cotidiano desde com alimentos processados, biotecnologia
; microcomputadores ; engenharia genética, clonagens...,
Sem que ninguém saiba se é decadência ou renascimento
cultural.
O pós-modernismo invadiu o cotidiano com a tecnologia eletrônica
de massa e individual, visando a sua saturação com
informações, diversões e serviços. O
motor a explosão detonou a revolução moderna
há um século; o chip, microprocessador com o tamanho
de um confete, esta causando o "rebu" pós-moderno,
com a tecnologia programada cada vez mais no dia a dia.
Na economia, ela passeia pela ávida sociedade de consumo,
onde os valores são calcados mais no prazer de usar bens
e serviços, do que pela preocupação com a "moral"
e os direitos humanos.
O que isso tem a ver com o jovem cristão?
O jovem cristão é alguém que está no
mundo e sofre as influências do mesmo, por isso você
deve estar atento as mudanças ao seu redor e sempre mostrando
a diferença do evangelho em sua vida. Uma das conseqüências
da pós-modernidade é o pluralismo, seja ele, intelectual,
social ou religioso. Esse pluralismo aponta para a idéia
de que não existem verdade absolutas, as verdades são
relativas. Isso demonstra que alguns conceitos do pós-modernismo
se mostram como algo muito negativo para o cristianismo uma vez
que nega a existência de verdades absolutas. Contudo existem
outras características que o jovem cristão deve estar
atento, para que não tenha um comportamento influenciado
pela sociedade.
Por exemplo, em nossos dias cada vez mais você é incentivado
a consumir. O seu valor está baseado não naquilo que
você é, mas naquilo que você possui. O prazer
é um dos itens principais de nossa sociedade e por isso são
produzidos cada vez mais meios de você ter prazer, seja emocional,
psicológico ou sexual. E não podemos nos esquecer
dos benefícios de uma sociedade concreta onde impera o bem
material. Nesta pequena exposição podemos identificar
alguns princípios da pós-modernidade, o materialismo,
o hedonismo e o consumismo. Uma outra idéia é que
a nossa sociedade valoriza os resultados rápidos, o crescimento
das tecnologias proporcionou a sensação de que se
você não tiver a resposta hoje, então não
serve. Contudo a perspectiva bíblica é em diferente
( Mat. 6. 33 e 34). É preciso saber esperar a resposta de
Deus.
Em nossos dias cada vez mais você é incentivado a dar
valor as coisas materiais, por mais mística que a sociedade
se encontre ela ainda sim, manifesta a experiência com o sobrenatural
através de objetos e elementos concretos (cristais, pedras,
estátuas...).
Esse tipo de idéia é totalmente contrário ao
Deus invisível, ao Deus da fé, contrário ao
Deus que não se vê, mas que pode ser sentido. É
por isso que você jovem cristão deve estar sempre buscando
não o consolo daquelas coisas que podem ser vistas, mas daquilo
que não se vê.
Por isso, o jovem de nossos dias deve estar atento aos conceitos
que estão acontecendo por aí e ter uma resposta com
base nas Escrituras, sobre Deus, o homem, o Espírito Santo
e sobre o relacionamento com Ele. A espiritualidade que Deus quer
de cada um de nós não é aquela que se manifesta
apenas em atitudes, mas deve vir do íntimo de nosso ser.
Início do caminho para uma liturgia conseqüente
A primeira coisa que precisamos compreender é o que significa
do termo liturgia e a história deste, logo após verificaremos
como a compreensão sadia deste termo pode ajudar a cada um
de nós a ter uma prática litúrgica relevante.
O termo "Liturgia", hoje utilizado quase que exclusivamente
para descrever o ato de culto, não nasceu em ambiente religioso
e nem mesmo no mundo do Antigo Testamento. Ele vai surgir por primeiro
na Grécia antiga, pertencendo pois à língua
grega clássica, como palavra composta por duas raízes:
leit (de laós = povo) e érgon (= ação,
empresa, obra). A palavra assim composta significava naquele ambiente
em que nasceu: "ação, obra, empresa para o povo
ou pública". Por "Liturgia" se entendia na
Grécia clássica, isto é, pelo séc. VI
antes de Cristo, um serviço público feito para o povo
por alguém de posses. Este realizava tal serviço ou
de forma livre ou porque se sentia como que obrigado a fazê-lo,
por ocupar elevada posição social e econômica.
Assim, eram "Liturgias" a promoção de festas
populares, a promoção de jogos olímpicos ou
o custeio de um destacamento militar ou de uma nave de guerra em
momentos de conflitos.
A seguir, na época helenística, séc. III a
I antes de Cristo, a palavra vai mudar de sentido. Ora, como sabemos,
as palavras numa língua viva costumam mudar o seu significado
ao longo do tempo, e isso podemos facilmente comprovar na nossa
própria língua. Assim, na época helenística
"Liturgia" vai passar a designar seja um trabalho obrigatório
realizado por um determinado grupo como castigo por alguma desobediência
contra o poder constituído, ou trabalho em reconhecimento
a honras recebidas. Também por "Liturgia" começa-se
a entender o serviço do servo para com seu senhor ou um favorzinho
de um amigo para com o outro. E aqui o termo perde aquele caráter
de serviço público, para a coletividade, que era seu
componente essencial.
Todavia, nesta mesma época helenística, começamos
a ver o termo "Liturgia" sendo usado cada vez mais em
sentido religioso-cultual, para indicar o serviço que algumas
pessoas previamente escolhidas prestavam aos deuses. E é
precisamente neste sentido técnico de serviço que
se presta a Deus que a palavra vai entrar no Antigo Testamento e,
tempos mais tarde, será acolhida no mundo cristão.
De fato, no texto do Antigo Testamento traduzido ainda antes de
Cristo para o grego e chamado tradução dos LXX (porque,
conforme se sustenta, foi traduzido por 70 homens sábios),
"Liturgia" aparece cerca de 170 vezes, designando sempre
o culto prestado a Javé, não por qualquer pessoa,
mas apenas pelos Sacerdotes e pelos Levitas no Templo de Jerusalém.
Já quando se refere ao culto prestado a Javé pelo
povo, a palavra utilizada pelos LXX não é jamais "Liturgia",
mas latría ou doulía. Isso por si só já
nos indica que os tradutores dos LXX fizeram uma escolha consciente
deste termo "Liturgia", dando-lhe um sentido técnico
preciso para indicar somente o culto oficial destinado a Javé
e realizado por uma categoria toda particular de pessoas reservadas
para isso: os Sacerdotes hebraicos.
No Novo Testamento o termo "Liturgia" vai aparecer apenas
15 vezes, mas uma só vez em sentido de culto ritual dos cristãos
(cf. At 13,2). E a razão de um tal desprezo dele pelo NT
parece dever-se exatamente ao fato de "Liturgia" recordar
de maneira muito clara e direta os sacrifícios realizados
no Templo e que foram tantas vezes e de tantos modos duramente criticados
pelos profetas de Israel, por não serem verdadeira expressão
de amor e agradecimento a Deus pelos benefícios recebidos
ou sinal de conversão dos pecados.
No cristianismo primitivo o termo "Liturgia" também
resiste a aparecer. Os primeiros cristãos adotando o "espiritualismo
cultual", isto é, aquele tipo de culto realizado em
"espírito e verdade", não mais ligado às
instituições do sacerdócio ou do templo, seja
o de Jerusalém ou de Garizim (cf. Jo 4,19-26), não
sentem a necessidade de utilizar uma palavra que havia servido para
identificar explicitamente um culto oficial, feito segundo regras
precisas, tal qual era o sacrifício hebraico, vazio de espírito
e rico de exterioridade. Mas já na Igreja pós-apostólica,
"Liturgia" vai perdendo parte de seu aspecto negativo
e começa a distinguir os ritos do culto cristão, como
se vê em documentos como a Didaché
Então pode-se perceber que liturgia pode ser visto com um
serviço que se presta a Deus. Ao se elaborar uma liturgia
conseqüente a primeira coisa que você deve ter em mente
é que o culto é um serviço que se presta a
Deus. E não o contrário, como tem acontecido hoje.
Em nossos dias o alvo de nossos cultos tem sido o homem e as suas
necessidades e não a adoração ao Senhor. Por
isso estaremos analisando a seguir alguns passos que podem ajudar
a elaborar uma liturgia conseqüente e não irreverente.
O que significa adorar?
O texto de João 4.24 é um texto importantíssimo
para se entender como o serviço a Deus deve ser realizado
de maneira saudável e agradável ao Senhor e não
as pessoas.
Neste texto quando Jesus se encontra com a mulher samaritana em
meio a muitas outras questões ela pergunta a Ele: Aonde devemos
adorar, aqui neste monte ou em Jerusalém? Jesus responde
que a questão não é o lugar, mas a maneira
como se adora, que esta adoração deve ser de coração,
deve ser sincera, vindo do espírito. Uma palavra que Jesus
usa, possui um significado muito especial e deve ser analisada essa
palavra é proskuneo e estaremos abaixo verificando as implicações
do significado destas palavras para os nossos atos litúrgicos.
E da mesma maneira estaremos analisando algumas outras palavras
que colaboram para a compreensão de uma adoração
e um serviço sincero ao Senhor.
Juntamente com palavras como fé e amor, pertencentes aos
mais profundos níveis da verdade cristã, não
se enquadram facilmente dentro de definições nítidas.
O significado de adorar está mais ligado a experiências
do que a uma definição verbal. Um sábio descreve
adoração como: " O transbordar de um coração
grato, impulsionado pelo sentimento do favor divino." Mas pode-se
definir adoração como "a resposta de celebração
a tudo que Deus tem feito, está fazendo e promete fazer".
O NT destaca a apalavra "adorar" (proskuneo e suas cognatas
– 58 vezes) entre cinco mil termos relacionados com o culto.
Originalmente está palavra significava "beijar".
Entre os gregos era um termo técnico que significava "adorar
os deuses", dobrando os joelhos ou prostrando-se. Beijar a
terra ou a imagem, em sinal de adoração, acompanhava
o ato de prostrar-se no chão. Colocar-se nessa posição
comunicava a idéia básica de submissão. O gesto
de curvar-se diante de uma pessoa e ir até o ponto de beijar
seus pés, quer dizer: "Reconheço a minha inferioridade
e a sua superioridade, coloco-me à sua inteira disposição".
"Adorar" (proskunein) foi utilizada para traduzir a palavra
hebraica shachah na Septuaginta e também transmitia o mesmo
conceito. Com este termo Jesus anulou a validade do culto tradicional
ma mulher de Sicar e seus conterrâneos Samaritanos. Tanto
o local como a preocupação com o tempo não
tinha mais importância alguma. At. 17.23; Jô 4.23; Mt.
4.10)
O Termo LATREIA também é usado na língua grega
para "adoração". Este termo grego tem sua
origem na idéia de serviço ou ministério. A
adoração é a forma de o homem expressar sua
gratidão e admiração a Deus. Assim, a adoração
é um "sacrifício de louvor". Muitas expressões
de adoração se encontram na Bíblia: "maranata",
"amém", "abba", além de muitas
doxologias (Rm. 11:33-36) e hinos cristãos (Ef. 5:14; Fp.
2:5-11). O culto implica também em serviço (latreia)
usado por Jesus para responder ao diabo ( Mt. 4.10). este segundo
termo é empregado freqüentemente na Septuaginta ( 90
vezes), especialmente no Êxodo, Deuteronômio, Josué,
e Juízes, mas apenas uma vez nos profetas. O significado
central deste termo surge de latron ( ordenado, no grego secular
foi usado para indicar um trabalho pago e, mais tarde, um trabalho
não pago). Mantém a idéia de servir. Tanto
no AT como no NT a relação entre o homem e Deus não
deixa de ser a de servir como escravo (abada em hebraico; douleou
em grego)
a) Os elementos da adoração:
- A Palavra de Deus
A leitura ou recitação da Palavra de Deus nas reuniões
de adoração é comum em Atos dos apóstolos,
o que prova tal prática desde à Igreja primitiva (At.
2:42; 6:2). Esta prática recebeu influência das sinagogas,
onde o Velho Testamento era lido nas reuniões. Esta prática
fica evidente na vida dos primeiros convertidos a partir do sermão
de Pedro: "e perseveravam na doutrina dos apóstolos"
(Atos 2:42).
- A oferta
Desde o Velho Testamento que a prática da oferta é
evidente e marcante nas reuniões dos judeus. O dízimo
e ofertas ao Senhor estão presentes desde Gênesis a
Malaquias. A Igreja primitiva também foi influenciada por
esta prática, canalizando os recursos obtidos para o saneamento
das necessidades dos cristãos. Desde às primeiras
conversões vê-se a Igreja envolvida com o ofertório:
"Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto
entre todos"; "Pois nenhum necessitado havia entre eles,
porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam
os valores correspondentes, e depositavam aos pés dos apóstolos"
(Atos 2:45; 4:34-35). Mas entenda que a oferta nunca é barganha
com Deus, ela está sempre voltada para a ajuda do necessitado
e não para fazer jogo de troca com Deus.
- A oração
A oração marcou as reuniões da Igreja mesmo
antes de a mesma ter nascido oficialmente, como é o caso
em que os discípulos ficaram reunidos em oração
aguardando o cumprimento da promessa de Jesus: a descida do Espírito
Santo. Essa prática, além da influência recebida
das sinagogas, marcou o início da Igreja desde as primeiras
reuniões de culto (Atos 2:42,47; 4:23-31).
- As ordenanças
Estas estão presentes na vida da Igreja em Atos os Apóstolos
como sinais de um novo viver e uma identificação com
Jesus Cristo. A conversão era seguida pelo batismo e a ceia
vinha após o batismo (Atos 2:41-42).
O partir do pão, como menção à prática
da Ceia do Senhor, era algo diário na vida da Igreja primitiva
e fazia parte das reuniões de adoração.
b) Os aspectos da adoração
- O Cristo vivo está presente no meio
A adoração da Igreja primitiva não se dirigia
a um senhor morto, mas a Cristo ressuscitado e, portanto, vivo e
presente. Esta característica se observa pela prática
da Ceia do Senhor e pela proclamação de Pedro no seu
primeiro discurso: "A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos
nós somos testemunhas" (Atos 2:32).
- O Espírito Santo dinamiza a adoração
Não há dúvida de que a Igreja nasceu proclamando
a Jesus ressuscitado sob o poder do Espírito Santo. Isso
quer dizer que a adoração, que inclui em si a proclamação
da Palavra de Deus, não pode ser efetivada sem a condução
do Espírito Santo. A própria promessa de Jesus Cristo
sinalizou que os discípulos dependeriam totalmente do poder
do Espírito Santo (At. 1:8). Lucas, o historiador de Atos
dos Apóstolos, deixou claro que o despertamento da igreja
foi porque "todos ficaram cheios do Espírito Santo"
(Atos. 2:4). Pedro atestou que o despertamento da Igreja para o
ministério que lhe foi confiado tornou-se possível
pelo derramamento do Espírito Santo (Atos 2:16-21, 38).
- Um espírito de comunhão em amor invade a igreja.
A Igreja surge num cenário de sofrimento, jugo, perseguição,
insatisfação, carência. Jerusalém estava
em desordem espiritual, política e econômica. Num clima
desses, normalmente, há a proliferação do egoísmo
como uma luta pela sobrevivência. A Igreja, pela sua prática
de culto, mostrou que a comunhão é a forma mais eficaz
para quaisquer tipos de situações. A Igreja nasceu
com um profundo cuidado uns pelos outros e pela participação
congregacional atuante e integral (Atos 2:42-47; 4:32-35).
c) O transbordar da adoração
A atmosfera de adoração, conforme a prática
da Igreja primitiva, não deveria se limitar às reuniões
dos santos, mas deveria transcendê-las num vivo testemunho
por onde quer que se passasse ou vivesse. Assim, mesmo fora de uma
reunião de culto, Filipe consegue ouvir a voz do Espírito
Santo e atendê-la; Paulo, mesmo distante de uma reunião
de adoração, consegue passa à Macedônia
por orientação do Espírito Santo; Paulo e Silas,
mesmo numa prisão, junto a outros presos com os quais não
tinham comunhão, conseguem expressar a adoração,
cantando hinos de louvor. Há, portanto, uma característica
marcante na Igreja primitiva que era o cuidado de se dar bom testemunho
da vida cristã em todos os ambientes e em todas as atividades.
Atos de reverência
Em terceiro lugar, o NT utiliza o vocábulo sebein (reverenciar),
tendo em sua raiz o misterium tremendum. O terror do Senhor impele
o pecador a afastar-se, com temor da majestade divina. As palavras
que derivam desta raiz (seb) são muito freqüentes na
língua grega fora da Bíblia. Transmitem o quadro característico
do grego como homem religioso devotado a seus deuses para evitar
as nefastas conseqüências do azar. A conotação
religiosa grega impediu que estes vocábulos fossem muito
usados para designar o culto, na tradução do AT (
Septuaginta). (Jô 9.31, Rm 1.18, Mt 15.9 e Mc 7.7)
Adorar Significa Serviço Sacerdotal
Em último lugar, analisaremos a importância de leiturgeo,
composto de duas palavras gregas, "povo" (laos) e "trabalho"
(ergon), palavra que já vimos um pouco de sua história,
mas neste momento veremos a sua influência na adoração
ao Senhor. Significava originalmente fazer trabalho público,
mas pagando sozinho as despesas. O alto privilégio de Zacarias
de ministrar no templo foi chamado de leiturgia por Lucas (1.23).
Podia ser usada para indicar o serviço de sacerdotes ao aspergir
o sangue na tenda e utensílios, no templo. O autor de Hebreus
chama este ato de "liturgia" (9.21). Os sacerdotes judeus
apresentavam-se diariamente par a"exercer o serviço"
(leitourgon) no sentido de oferecer os sacrifícios. Mas tudo
isso foi superado no "serviço de Deus, o verdadeiro
Sumo Sacerdote do santeuário celestial (HB. 8.2), chamado
leiturgos ( ministro sagrado). Jesus é o nosso sumo sacerdote,
é Ele que derramou e ofereceu o sangue para o perdão
de nossos pecados. Por isso com base no sacerdócio universal
de todos os crentes podemos entender que o ser viço de culto
é algo prestado por todos, pois Cristo deu acesso a todos
quantos o aceitaram e não apenas a algumas pessoas.
Diante do estudo destes termos podemos perceber que uma liturgia
conseqüente passa por uma vida de adoração, A
Igreja Primitiva continuou olhando para a adoração
como uma atividade diária e constante (At 2.42-47). Para
os primeiros discípulos, a adoração não
era um tempo separado na vida diária; ela era a própria
vida diária. Os acontecimentos imediatos à conversão
de Paulo também nos ensinam que somos salvos para adorar
(At 9.11).17 O próprio apóstolo Paulo referiu-se mais
tarde à vida cristã como um contínuo ato de
adoração (Rm 12.1-2). E em Hebreus temos explícito
mandamento quanto à necessidade da adoração
pública do povo de Deus (Hb 10.25). Por fim, o imperativo
"adora a Deus" é uma das últimas admoestações
do livro do Apocalipse (Ap 22.9).
Uma liturgia conseqüente, relevante é aquela que em
primeiro lugar coloca o Senhor e não as vontades humanas,
ao entrar para o momento de culto na igreja, ao acordar de manhã
e ir para o trabalho ou para os estudos devemos entrar em contato
com o Senhor e fazer de nossas vidas um a adoração
constante.
O Caminho para uma liturgia conseqüente
Não existem fórmulas no relacionamento com Deus. O
texto de Êxodo 3.14, quando Deus fala a Moisés o seu
nome, que pode significar "Eu sou aquele que serei". Quer
dizer que Moisés só conheceria a Deus a medida que
caminhasse com Ele, este texto nos traz uma lição
muito importante: Não é possível conhecer a
Deus através de momentos especiais ou de rituais ou cultos,
mas conhecer a Deus é um processo que leva toda uma vida.
Isso nos leva a perguntar se existem em meio as múltiplas
maneiras de cultuar, um "sine que non" na adoração,
um elemento que seja imprescindível? Cremos firmemente que
sim. Jesus reafirmou o que Moisés, no AT, deixou claro: o
primeiro mandamento exige um amor a Deus, sem limites (Dt. 6.4,5).
Séculos depois que o Det. Foi escrito, um intérprete
da lei levantou esta pergunta para Jesus: Qual é o grande
mandamento da Lei? Respondeu Jesus: " Amarás o Senhor
teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma
e de todo o teu entendimento (Mt. 22. 36,37). No texto original
de Deut., encontramos a palavra "força" em lugar
de "entendimento". O texto de Marcos (12.30) transcreve
ambos, "entendimento e "força", na resposta
de Jesus. O cristão, cuja mente e coração estão
voltados para o Criador e Pai Eterno, percebe nestas palavras de
Jesus um verdadeiro desafio, pois nelas estão a raiz, o tronco
e o fruto da adoração.
Sem o incentivo do amor por Deus, o culto não passa de palha,
pura casca, isento de qualquer valor. Uma adoração
que se realiza sem o objetivo de expressar e aumentar nosso amor
por Aqueles " de quem e por meio de quem e para quem, são
todas as coisas" (Rm 11.36), falha completamente. Deixa de
ser culto a Deus, pois carece da essência, que é p
amor.
Ora quando se trata de amor por pessoas amigas ou entes queridos
da família, não encontramos dificuldades em entender
o sentido de amar. Mas, como se há de amar a Deus, a quem
"ninguém jamais viu?" (João 1.18) Como havemos
de colocar o Senhor no centro de nossas ambições?
Ou, como nutriremos a amizade que venhamos a oferecer a Deus, sendo
nós pecadores, enquanto Ele é Espírito infinito
e mora em luz inacessível? Os cristãos, reunidos em
adoração a Deus, devem ter este objetivo como prioritário.
O amor a Deus é o primeiro passo para um ato litúrgico,
cultico e de adoração. O amor a Deus deve ser o motivo
que leva o cristão a cultuar a Deus. Não são
as suas necessidade, os seus problemas, as suas ansiedade, mas o
amor a Deus é o elemento primeiro e motivador para a adoração
a Deus.
Um outro passo é a questão da experiência com
o Senhor, é o relacionamento que o jovem e a jovem pode e
deve nutrir com Deus. "O cerne da religião é
a experiência religiosa", afirma D.H. Lewis. A adoração
canaliza essa experiência e a promove tanto interior como
exteriormente. Numerosas passagens da Bíblia apresentam o
quadro da adoração interior. Elas são marcadas
pelo sentimento de amor e a busca de santidade. Outros textos, igualmente,
descrevem o culto oferecido a Deus através de atos externos.
Eles destacam o serviço religioso.Uma terceira porção
de textos, muitos por sinal, une a adoração exterior
com a interior, através de metáforas relacionadas
com os sentidos.
O fato é que a nossa vida não é capaz de manter-se
apenas no nível espiritual, nem se restringe ao imaterial,
mas constantemente nos envolve no mundo, dá aos sentidos
uma importância inegável para nós. Deus é
Espírito. Adorá-lo em espírito não quer
dizer, certamente, que nosso culto ficará desvinculado de
toda matéria e que os sentidos não estarão
também em jogo. Mas a insistência dos autores sagrados
em lembrar-nos que ninguém jamais viu a Deus deve nos advertir
contra um externar grosseiro da adoração ( Ex. 33.20;
João 1.18). importa não criar ídolos para facilitar
a visão de Deus. Não há um cristianismo sem
religião, se entendemos com este vocábulo os atos
externos que facilitam e conduzem nossas almas até o trono
de Deus.
Então um segundo passo seria a de uma atitude relacional
positiva para com o Senhor. Um relacionamento que é apresentando
com base no amor a Deus. O homem e a mulher devem apresentar em
seu dia-a-dia atitudes que demonstrem uma relação
com o Senhor. O testemunho do jovem e da jovem deve ter como base
o seu relacionamento com Deus. Uma experiência que nasce de
homens e mulheres sedentos por Deus e por fazer a sua vontade levará
o jovem a ter uma vida de serviço a Deus. E servir a Deus
de igual modo é servir ao próximo também.
Um terceiro e último ponto para uma liturgia conseqüente
seria o serviço ao próximo. Ao olhar para Jesus percebemos
que a sua vida e o seu ministério todo Ele foi voltado para
o outro. Segundo Fil. 2. 5-11, Jesus foi obediente ao Pai, se fez
homem e se entregou por cada um de nós. Devemos entender
que um relacionamento com Deus, com base no amor me leva a cultivar
um estilo de vida de amor e serviço ao próximo.
A parábola do Bom Samaritano apresenta a idéia de
que o nosso próximo é aquele que está necessitado
e que devemos ajudar ao necessitado de acordo com as nossas capacidades.
Não é a nossa posição dentro do círculo
religioso, não são as nossas tarefas eclesiásticas,
mas o amor que leva a entender a necessidade de ajudar ao necessitado.
CONCLUSÃO
Podemos dizer então que uma liturgia conseqüente parte
do entendimento de que a minha vida é uma vida de serviço
a Deus e ao próximo, que diante dos termos do Novo Testamento
que falam de adoração ligam sempre a idéia
de serviço, prestar serviço a Deus. E o serviço
a Deus se manifesta no serviço ao próximo, a perceber
a necessidade daquele que me rodeia e de ajudá-lo mediante
as minhas condições.
Que possamos entender que o culto deve ser prestado a Deus e não
as necessidades dos homens. O centro do culto e de nossas vidas
deve ser a adoração a Deus. Nossas atividades na igreja
devem ser realizadas para que o Senhor seja glorificado e não
para inflar o nosso ego ou satisfazer nossas necessidades. Uma liturgia
conseqüente é a que em que a vida toda está voltada
para o Senhor, o centro e o motivo são agradar a Deus e não
a mim mesmo. Devemos compreender a necessidade de ultrapassar nossos
desejos e procurar agradar a Deus
Que nossas vidas sejam sacrifícios vivos ao Senhor e que
todo o serviço prestado ao próximo possa subir aos
céus como cheiro suave ao Senhor.
Acessado em 25/10/04 - http://www.soledadeitajuba.com.br/lit_termo.htm
Documento apostólico que reunia orientação
para o culto e a vida dos primeiros cristãos.
SHEDD, RUSSEL P. Adoração Bíblica, p. 16-20
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