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Culto e Responsabilidade
Ricardo Luiz de Freitas
Mestre em Teologia
e Especialista em Ciências da Religião.


Vivemos em uma época em que o nome de Cristo tem sido usado para muitas coisas, para ganhar dinheiro, para satisfazer egos, para realizações financeira e materiais. Infelizmente o nome de Cristo tem sido separado da idéia de que somos servos de Deus, conforme afirma Paulo (Rom. 1.1)

Parece que hoje as pessoas percebem Deus como o seu garoto de recados, onde eu peço um benção e ele deve ser obrigado a me atender ou a buscar a minha encomenda/benção. Isso contrária toda a idéia de relacionamento com Deus e não há outra maneira de realizar uma liturgia consequente/relevante se eu inverto os papéis. Mas porque isso acontece? O que tem levado as pessoas a distorcerem a real idéia de culto.

Procurando responder a estas perguntas e à apresentar uma reflexão sobre uma liturgia conseqüente verificaremos em primeiro lugar os elementos de nossa sociedade que tem contribuído para essa inversão de valores e logo após estudaremos os termos do Novo Testamento que nos apontam o caminho para um ato litúrgico relevante e saudável para o nosso relacionamento com Deus.

Fatores que distorcem o ato litúrgico

O Pós-modernismo
É a denominação aplicada às mudanças ocorridas nas sociedades avançadas desde 1959 no âmbito das ciências, nas artes e, quando por convenção, se encerrou o modernismo ( 1990- 1950 ).
Nascendo com a arquitetura e a computação nos anos 50, parece que toma corpo com a arte pop nos anos 60. Cresce, ao entrar pela filosofia, durante os anos 70, como critica da cultura ocidental. Amadurece hoje, alastrando-se na moda, no cinema, na música e no cotidiano programado pela tecnociência , invadindo o cotidiano desde com alimentos processados, biotecnologia ; microcomputadores ; engenharia genética, clonagens..., Sem que ninguém saiba se é decadência ou renascimento cultural.

O pós-modernismo invadiu o cotidiano com a tecnologia eletrônica de massa e individual, visando a sua saturação com informações, diversões e serviços. O motor a explosão detonou a revolução moderna há um século; o chip, microprocessador com o tamanho de um confete, esta causando o "rebu" pós-moderno, com a tecnologia programada cada vez mais no dia a dia.

Na economia, ela passeia pela ávida sociedade de consumo, onde os valores são calcados mais no prazer de usar bens e serviços, do que pela preocupação com a "moral" e os direitos humanos.

O que isso tem a ver com o jovem cristão?

O jovem cristão é alguém que está no mundo e sofre as influências do mesmo, por isso você deve estar atento as mudanças ao seu redor e sempre mostrando a diferença do evangelho em sua vida. Uma das conseqüências da pós-modernidade é o pluralismo, seja ele, intelectual, social ou religioso. Esse pluralismo aponta para a idéia de que não existem verdade absolutas, as verdades são relativas. Isso demonstra que alguns conceitos do pós-modernismo se mostram como algo muito negativo para o cristianismo uma vez que nega a existência de verdades absolutas. Contudo existem outras características que o jovem cristão deve estar atento, para que não tenha um comportamento influenciado pela sociedade.

Por exemplo, em nossos dias cada vez mais você é incentivado a consumir. O seu valor está baseado não naquilo que você é, mas naquilo que você possui. O prazer é um dos itens principais de nossa sociedade e por isso são produzidos cada vez mais meios de você ter prazer, seja emocional, psicológico ou sexual. E não podemos nos esquecer dos benefícios de uma sociedade concreta onde impera o bem material. Nesta pequena exposição podemos identificar alguns princípios da pós-modernidade, o materialismo, o hedonismo e o consumismo. Uma outra idéia é que a nossa sociedade valoriza os resultados rápidos, o crescimento das tecnologias proporcionou a sensação de que se você não tiver a resposta hoje, então não serve. Contudo a perspectiva bíblica é em diferente ( Mat. 6. 33 e 34). É preciso saber esperar a resposta de Deus.

Em nossos dias cada vez mais você é incentivado a dar valor as coisas materiais, por mais mística que a sociedade se encontre ela ainda sim, manifesta a experiência com o sobrenatural através de objetos e elementos concretos (cristais, pedras, estátuas...).

Esse tipo de idéia é totalmente contrário ao Deus invisível, ao Deus da fé, contrário ao Deus que não se vê, mas que pode ser sentido. É por isso que você jovem cristão deve estar sempre buscando não o consolo daquelas coisas que podem ser vistas, mas daquilo que não se vê.

Por isso, o jovem de nossos dias deve estar atento aos conceitos que estão acontecendo por aí e ter uma resposta com base nas Escrituras, sobre Deus, o homem, o Espírito Santo e sobre o relacionamento com Ele. A espiritualidade que Deus quer de cada um de nós não é aquela que se manifesta apenas em atitudes, mas deve vir do íntimo de nosso ser.

Início do caminho para uma liturgia conseqüente

A primeira coisa que precisamos compreender é o que significa do termo liturgia e a história deste, logo após verificaremos como a compreensão sadia deste termo pode ajudar a cada um de nós a ter uma prática litúrgica relevante.
O termo "Liturgia", hoje utilizado quase que exclusivamente para descrever o ato de culto, não nasceu em ambiente religioso e nem mesmo no mundo do Antigo Testamento. Ele vai surgir por primeiro na Grécia antiga, pertencendo pois à língua grega clássica, como palavra composta por duas raízes: leit (de laós = povo) e érgon (= ação, empresa, obra). A palavra assim composta significava naquele ambiente em que nasceu: "ação, obra, empresa para o povo ou pública". Por "Liturgia" se entendia na Grécia clássica, isto é, pelo séc. VI antes de Cristo, um serviço público feito para o povo por alguém de posses. Este realizava tal serviço ou de forma livre ou porque se sentia como que obrigado a fazê-lo, por ocupar elevada posição social e econômica. Assim, eram "Liturgias" a promoção de festas populares, a promoção de jogos olímpicos ou o custeio de um destacamento militar ou de uma nave de guerra em momentos de conflitos.
A seguir, na época helenística, séc. III a I antes de Cristo, a palavra vai mudar de sentido. Ora, como sabemos, as palavras numa língua viva costumam mudar o seu significado ao longo do tempo, e isso podemos facilmente comprovar na nossa própria língua. Assim, na época helenística "Liturgia" vai passar a designar seja um trabalho obrigatório realizado por um determinado grupo como castigo por alguma desobediência contra o poder constituído, ou trabalho em reconhecimento a honras recebidas. Também por "Liturgia" começa-se a entender o serviço do servo para com seu senhor ou um favorzinho de um amigo para com o outro. E aqui o termo perde aquele caráter de serviço público, para a coletividade, que era seu componente essencial.
Todavia, nesta mesma época helenística, começamos a ver o termo "Liturgia" sendo usado cada vez mais em sentido religioso-cultual, para indicar o serviço que algumas pessoas previamente escolhidas prestavam aos deuses. E é precisamente neste sentido técnico de serviço que se presta a Deus que a palavra vai entrar no Antigo Testamento e, tempos mais tarde, será acolhida no mundo cristão.
De fato, no texto do Antigo Testamento traduzido ainda antes de Cristo para o grego e chamado tradução dos LXX (porque, conforme se sustenta, foi traduzido por 70 homens sábios), "Liturgia" aparece cerca de 170 vezes, designando sempre o culto prestado a Javé, não por qualquer pessoa, mas apenas pelos Sacerdotes e pelos Levitas no Templo de Jerusalém. Já quando se refere ao culto prestado a Javé pelo povo, a palavra utilizada pelos LXX não é jamais "Liturgia", mas latría ou doulía. Isso por si só já nos indica que os tradutores dos LXX fizeram uma escolha consciente deste termo "Liturgia", dando-lhe um sentido técnico preciso para indicar somente o culto oficial destinado a Javé e realizado por uma categoria toda particular de pessoas reservadas para isso: os Sacerdotes hebraicos.
No Novo Testamento o termo "Liturgia" vai aparecer apenas 15 vezes, mas uma só vez em sentido de culto ritual dos cristãos (cf. At 13,2). E a razão de um tal desprezo dele pelo NT parece dever-se exatamente ao fato de "Liturgia" recordar de maneira muito clara e direta os sacrifícios realizados no Templo e que foram tantas vezes e de tantos modos duramente criticados pelos profetas de Israel, por não serem verdadeira expressão de amor e agradecimento a Deus pelos benefícios recebidos ou sinal de conversão dos pecados.
No cristianismo primitivo o termo "Liturgia" também resiste a aparecer. Os primeiros cristãos adotando o "espiritualismo cultual", isto é, aquele tipo de culto realizado em "espírito e verdade", não mais ligado às instituições do sacerdócio ou do templo, seja o de Jerusalém ou de Garizim (cf. Jo 4,19-26), não sentem a necessidade de utilizar uma palavra que havia servido para identificar explicitamente um culto oficial, feito segundo regras precisas, tal qual era o sacrifício hebraico, vazio de espírito e rico de exterioridade. Mas já na Igreja pós-apostólica, "Liturgia" vai perdendo parte de seu aspecto negativo e começa a distinguir os ritos do culto cristão, como se vê em documentos como a Didaché
Então pode-se perceber que liturgia pode ser visto com um serviço que se presta a Deus. Ao se elaborar uma liturgia conseqüente a primeira coisa que você deve ter em mente é que o culto é um serviço que se presta a Deus. E não o contrário, como tem acontecido hoje. Em nossos dias o alvo de nossos cultos tem sido o homem e as suas necessidades e não a adoração ao Senhor. Por isso estaremos analisando a seguir alguns passos que podem ajudar a elaborar uma liturgia conseqüente e não irreverente.
O que significa adorar?
O texto de João 4.24 é um texto importantíssimo para se entender como o serviço a Deus deve ser realizado de maneira saudável e agradável ao Senhor e não as pessoas.
Neste texto quando Jesus se encontra com a mulher samaritana em meio a muitas outras questões ela pergunta a Ele: Aonde devemos adorar, aqui neste monte ou em Jerusalém? Jesus responde que a questão não é o lugar, mas a maneira como se adora, que esta adoração deve ser de coração, deve ser sincera, vindo do espírito. Uma palavra que Jesus usa, possui um significado muito especial e deve ser analisada essa palavra é proskuneo e estaremos abaixo verificando as implicações do significado destas palavras para os nossos atos litúrgicos. E da mesma maneira estaremos analisando algumas outras palavras que colaboram para a compreensão de uma adoração e um serviço sincero ao Senhor.
Juntamente com palavras como fé e amor, pertencentes aos mais profundos níveis da verdade cristã, não se enquadram facilmente dentro de definições nítidas. O significado de adorar está mais ligado a experiências do que a uma definição verbal. Um sábio descreve adoração como: " O transbordar de um coração grato, impulsionado pelo sentimento do favor divino." Mas pode-se definir adoração como "a resposta de celebração a tudo que Deus tem feito, está fazendo e promete fazer".

O NT destaca a apalavra "adorar" (proskuneo e suas cognatas – 58 vezes) entre cinco mil termos relacionados com o culto. Originalmente está palavra significava "beijar". Entre os gregos era um termo técnico que significava "adorar os deuses", dobrando os joelhos ou prostrando-se. Beijar a terra ou a imagem, em sinal de adoração, acompanhava o ato de prostrar-se no chão. Colocar-se nessa posição comunicava a idéia básica de submissão. O gesto de curvar-se diante de uma pessoa e ir até o ponto de beijar seus pés, quer dizer: "Reconheço a minha inferioridade e a sua superioridade, coloco-me à sua inteira disposição".

"Adorar" (proskunein) foi utilizada para traduzir a palavra hebraica shachah na Septuaginta e também transmitia o mesmo conceito. Com este termo Jesus anulou a validade do culto tradicional ma mulher de Sicar e seus conterrâneos Samaritanos. Tanto o local como a preocupação com o tempo não tinha mais importância alguma. At. 17.23; Jô 4.23; Mt. 4.10)

O Termo LATREIA também é usado na língua grega para "adoração". Este termo grego tem sua origem na idéia de serviço ou ministério. A adoração é a forma de o homem expressar sua gratidão e admiração a Deus. Assim, a adoração é um "sacrifício de louvor". Muitas expressões de adoração se encontram na Bíblia: "maranata", "amém", "abba", além de muitas doxologias (Rm. 11:33-36) e hinos cristãos (Ef. 5:14; Fp. 2:5-11). O culto implica também em serviço (latreia) usado por Jesus para responder ao diabo ( Mt. 4.10). este segundo termo é empregado freqüentemente na Septuaginta ( 90 vezes), especialmente no Êxodo, Deuteronômio, Josué, e Juízes, mas apenas uma vez nos profetas. O significado central deste termo surge de latron ( ordenado, no grego secular foi usado para indicar um trabalho pago e, mais tarde, um trabalho não pago). Mantém a idéia de servir. Tanto no AT como no NT a relação entre o homem e Deus não deixa de ser a de servir como escravo (abada em hebraico; douleou em grego)


a) Os elementos da adoração:
- A Palavra de Deus
A leitura ou recitação da Palavra de Deus nas reuniões de adoração é comum em Atos dos apóstolos, o que prova tal prática desde à Igreja primitiva (At. 2:42; 6:2). Esta prática recebeu influência das sinagogas, onde o Velho Testamento era lido nas reuniões. Esta prática fica evidente na vida dos primeiros convertidos a partir do sermão de Pedro: "e perseveravam na doutrina dos apóstolos" (Atos 2:42).

- A oferta
Desde o Velho Testamento que a prática da oferta é evidente e marcante nas reuniões dos judeus. O dízimo e ofertas ao Senhor estão presentes desde Gênesis a Malaquias. A Igreja primitiva também foi influenciada por esta prática, canalizando os recursos obtidos para o saneamento das necessidades dos cristãos. Desde às primeiras conversões vê-se a Igreja envolvida com o ofertório: "Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos"; "Pois nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes, e depositavam aos pés dos apóstolos" (Atos 2:45; 4:34-35). Mas entenda que a oferta nunca é barganha com Deus, ela está sempre voltada para a ajuda do necessitado e não para fazer jogo de troca com Deus.

- A oração
A oração marcou as reuniões da Igreja mesmo antes de a mesma ter nascido oficialmente, como é o caso em que os discípulos ficaram reunidos em oração aguardando o cumprimento da promessa de Jesus: a descida do Espírito Santo. Essa prática, além da influência recebida das sinagogas, marcou o início da Igreja desde as primeiras reuniões de culto (Atos 2:42,47; 4:23-31).

- As ordenanças
Estas estão presentes na vida da Igreja em Atos os Apóstolos como sinais de um novo viver e uma identificação com Jesus Cristo. A conversão era seguida pelo batismo e a ceia vinha após o batismo (Atos 2:41-42).
O partir do pão, como menção à prática da Ceia do Senhor, era algo diário na vida da Igreja primitiva e fazia parte das reuniões de adoração.


b) Os aspectos da adoração

- O Cristo vivo está presente no meio
A adoração da Igreja primitiva não se dirigia a um senhor morto, mas a Cristo ressuscitado e, portanto, vivo e presente. Esta característica se observa pela prática da Ceia do Senhor e pela proclamação de Pedro no seu primeiro discurso: "A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas" (Atos 2:32).
- O Espírito Santo dinamiza a adoração
Não há dúvida de que a Igreja nasceu proclamando a Jesus ressuscitado sob o poder do Espírito Santo. Isso quer dizer que a adoração, que inclui em si a proclamação da Palavra de Deus, não pode ser efetivada sem a condução do Espírito Santo. A própria promessa de Jesus Cristo sinalizou que os discípulos dependeriam totalmente do poder do Espírito Santo (At. 1:8). Lucas, o historiador de Atos dos Apóstolos, deixou claro que o despertamento da igreja foi porque "todos ficaram cheios do Espírito Santo" (Atos. 2:4). Pedro atestou que o despertamento da Igreja para o ministério que lhe foi confiado tornou-se possível pelo derramamento do Espírito Santo (Atos 2:16-21, 38).
- Um espírito de comunhão em amor invade a igreja.
A Igreja surge num cenário de sofrimento, jugo, perseguição, insatisfação, carência. Jerusalém estava em desordem espiritual, política e econômica. Num clima desses, normalmente, há a proliferação do egoísmo como uma luta pela sobrevivência. A Igreja, pela sua prática de culto, mostrou que a comunhão é a forma mais eficaz para quaisquer tipos de situações. A Igreja nasceu com um profundo cuidado uns pelos outros e pela participação congregacional atuante e integral (Atos 2:42-47; 4:32-35).
c) O transbordar da adoração
A atmosfera de adoração, conforme a prática da Igreja primitiva, não deveria se limitar às reuniões dos santos, mas deveria transcendê-las num vivo testemunho por onde quer que se passasse ou vivesse. Assim, mesmo fora de uma reunião de culto, Filipe consegue ouvir a voz do Espírito Santo e atendê-la; Paulo, mesmo distante de uma reunião de adoração, consegue passa à Macedônia por orientação do Espírito Santo; Paulo e Silas, mesmo numa prisão, junto a outros presos com os quais não tinham comunhão, conseguem expressar a adoração, cantando hinos de louvor. Há, portanto, uma característica marcante na Igreja primitiva que era o cuidado de se dar bom testemunho da vida cristã em todos os ambientes e em todas as atividades.

Atos de reverência

Em terceiro lugar, o NT utiliza o vocábulo sebein (reverenciar), tendo em sua raiz o misterium tremendum. O terror do Senhor impele o pecador a afastar-se, com temor da majestade divina. As palavras que derivam desta raiz (seb) são muito freqüentes na língua grega fora da Bíblia. Transmitem o quadro característico do grego como homem religioso devotado a seus deuses para evitar as nefastas conseqüências do azar. A conotação religiosa grega impediu que estes vocábulos fossem muito usados para designar o culto, na tradução do AT ( Septuaginta). (Jô 9.31, Rm 1.18, Mt 15.9 e Mc 7.7)


Adorar Significa Serviço Sacerdotal

Em último lugar, analisaremos a importância de leiturgeo, composto de duas palavras gregas, "povo" (laos) e "trabalho" (ergon), palavra que já vimos um pouco de sua história, mas neste momento veremos a sua influência na adoração ao Senhor. Significava originalmente fazer trabalho público, mas pagando sozinho as despesas. O alto privilégio de Zacarias de ministrar no templo foi chamado de leiturgia por Lucas (1.23). Podia ser usada para indicar o serviço de sacerdotes ao aspergir o sangue na tenda e utensílios, no templo. O autor de Hebreus chama este ato de "liturgia" (9.21). Os sacerdotes judeus apresentavam-se diariamente par a"exercer o serviço" (leitourgon) no sentido de oferecer os sacrifícios. Mas tudo isso foi superado no "serviço de Deus, o verdadeiro Sumo Sacerdote do santeuário celestial (HB. 8.2), chamado leiturgos ( ministro sagrado). Jesus é o nosso sumo sacerdote, é Ele que derramou e ofereceu o sangue para o perdão de nossos pecados. Por isso com base no sacerdócio universal de todos os crentes podemos entender que o ser viço de culto é algo prestado por todos, pois Cristo deu acesso a todos quantos o aceitaram e não apenas a algumas pessoas.


Diante do estudo destes termos podemos perceber que uma liturgia conseqüente passa por uma vida de adoração, A Igreja Primitiva continuou olhando para a adoração como uma atividade diária e constante (At 2.42-47). Para os primeiros discípulos, a adoração não era um tempo separado na vida diária; ela era a própria vida diária. Os acontecimentos imediatos à conversão de Paulo também nos ensinam que somos salvos para adorar (At 9.11).17 O próprio apóstolo Paulo referiu-se mais tarde à vida cristã como um contínuo ato de adoração (Rm 12.1-2). E em Hebreus temos explícito mandamento quanto à necessidade da adoração pública do povo de Deus (Hb 10.25). Por fim, o imperativo "adora a Deus" é uma das últimas admoestações do livro do Apocalipse (Ap 22.9).

Uma liturgia conseqüente, relevante é aquela que em primeiro lugar coloca o Senhor e não as vontades humanas, ao entrar para o momento de culto na igreja, ao acordar de manhã e ir para o trabalho ou para os estudos devemos entrar em contato com o Senhor e fazer de nossas vidas um a adoração constante.


O Caminho para uma liturgia conseqüente

Não existem fórmulas no relacionamento com Deus. O texto de Êxodo 3.14, quando Deus fala a Moisés o seu nome, que pode significar "Eu sou aquele que serei". Quer dizer que Moisés só conheceria a Deus a medida que caminhasse com Ele, este texto nos traz uma lição muito importante: Não é possível conhecer a Deus através de momentos especiais ou de rituais ou cultos, mas conhecer a Deus é um processo que leva toda uma vida.

Isso nos leva a perguntar se existem em meio as múltiplas maneiras de cultuar, um "sine que non" na adoração, um elemento que seja imprescindível? Cremos firmemente que sim. Jesus reafirmou o que Moisés, no AT, deixou claro: o primeiro mandamento exige um amor a Deus, sem limites (Dt. 6.4,5). Séculos depois que o Det. Foi escrito, um intérprete da lei levantou esta pergunta para Jesus: Qual é o grande mandamento da Lei? Respondeu Jesus: " Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento (Mt. 22. 36,37). No texto original de Deut., encontramos a palavra "força" em lugar de "entendimento". O texto de Marcos (12.30) transcreve ambos, "entendimento e "força", na resposta de Jesus. O cristão, cuja mente e coração estão voltados para o Criador e Pai Eterno, percebe nestas palavras de Jesus um verdadeiro desafio, pois nelas estão a raiz, o tronco e o fruto da adoração.

Sem o incentivo do amor por Deus, o culto não passa de palha, pura casca, isento de qualquer valor. Uma adoração que se realiza sem o objetivo de expressar e aumentar nosso amor por Aqueles " de quem e por meio de quem e para quem, são todas as coisas" (Rm 11.36), falha completamente. Deixa de ser culto a Deus, pois carece da essência, que é p amor.

Ora quando se trata de amor por pessoas amigas ou entes queridos da família, não encontramos dificuldades em entender o sentido de amar. Mas, como se há de amar a Deus, a quem "ninguém jamais viu?" (João 1.18) Como havemos de colocar o Senhor no centro de nossas ambições? Ou, como nutriremos a amizade que venhamos a oferecer a Deus, sendo nós pecadores, enquanto Ele é Espírito infinito e mora em luz inacessível? Os cristãos, reunidos em adoração a Deus, devem ter este objetivo como prioritário.

O amor a Deus é o primeiro passo para um ato litúrgico, cultico e de adoração. O amor a Deus deve ser o motivo que leva o cristão a cultuar a Deus. Não são as suas necessidade, os seus problemas, as suas ansiedade, mas o amor a Deus é o elemento primeiro e motivador para a adoração a Deus.

Um outro passo é a questão da experiência com o Senhor, é o relacionamento que o jovem e a jovem pode e deve nutrir com Deus. "O cerne da religião é a experiência religiosa", afirma D.H. Lewis. A adoração canaliza essa experiência e a promove tanto interior como exteriormente. Numerosas passagens da Bíblia apresentam o quadro da adoração interior. Elas são marcadas pelo sentimento de amor e a busca de santidade. Outros textos, igualmente, descrevem o culto oferecido a Deus através de atos externos. Eles destacam o serviço religioso.Uma terceira porção de textos, muitos por sinal, une a adoração exterior com a interior, através de metáforas relacionadas com os sentidos.

O fato é que a nossa vida não é capaz de manter-se apenas no nível espiritual, nem se restringe ao imaterial, mas constantemente nos envolve no mundo, dá aos sentidos uma importância inegável para nós. Deus é Espírito. Adorá-lo em espírito não quer dizer, certamente, que nosso culto ficará desvinculado de toda matéria e que os sentidos não estarão também em jogo. Mas a insistência dos autores sagrados em lembrar-nos que ninguém jamais viu a Deus deve nos advertir contra um externar grosseiro da adoração ( Ex. 33.20; João 1.18). importa não criar ídolos para facilitar a visão de Deus. Não há um cristianismo sem religião, se entendemos com este vocábulo os atos externos que facilitam e conduzem nossas almas até o trono de Deus.


Então um segundo passo seria a de uma atitude relacional positiva para com o Senhor. Um relacionamento que é apresentando com base no amor a Deus. O homem e a mulher devem apresentar em seu dia-a-dia atitudes que demonstrem uma relação com o Senhor. O testemunho do jovem e da jovem deve ter como base o seu relacionamento com Deus. Uma experiência que nasce de homens e mulheres sedentos por Deus e por fazer a sua vontade levará o jovem a ter uma vida de serviço a Deus. E servir a Deus de igual modo é servir ao próximo também.

Um terceiro e último ponto para uma liturgia conseqüente seria o serviço ao próximo. Ao olhar para Jesus percebemos que a sua vida e o seu ministério todo Ele foi voltado para o outro. Segundo Fil. 2. 5-11, Jesus foi obediente ao Pai, se fez homem e se entregou por cada um de nós. Devemos entender que um relacionamento com Deus, com base no amor me leva a cultivar um estilo de vida de amor e serviço ao próximo.

A parábola do Bom Samaritano apresenta a idéia de que o nosso próximo é aquele que está necessitado e que devemos ajudar ao necessitado de acordo com as nossas capacidades. Não é a nossa posição dentro do círculo religioso, não são as nossas tarefas eclesiásticas, mas o amor que leva a entender a necessidade de ajudar ao necessitado.

CONCLUSÃO

Podemos dizer então que uma liturgia conseqüente parte do entendimento de que a minha vida é uma vida de serviço a Deus e ao próximo, que diante dos termos do Novo Testamento que falam de adoração ligam sempre a idéia de serviço, prestar serviço a Deus. E o serviço a Deus se manifesta no serviço ao próximo, a perceber a necessidade daquele que me rodeia e de ajudá-lo mediante as minhas condições.

Que possamos entender que o culto deve ser prestado a Deus e não as necessidades dos homens. O centro do culto e de nossas vidas deve ser a adoração a Deus. Nossas atividades na igreja devem ser realizadas para que o Senhor seja glorificado e não para inflar o nosso ego ou satisfazer nossas necessidades. Uma liturgia conseqüente é a que em que a vida toda está voltada para o Senhor, o centro e o motivo são agradar a Deus e não a mim mesmo. Devemos compreender a necessidade de ultrapassar nossos desejos e procurar agradar a Deus

Que nossas vidas sejam sacrifícios vivos ao Senhor e que todo o serviço prestado ao próximo possa subir aos céus como cheiro suave ao Senhor.



Acessado em 25/10/04 - http://www.soledadeitajuba.com.br/lit_termo.htm
Documento apostólico que reunia orientação para o culto e a vida dos primeiros cristãos.
SHEDD, RUSSEL P. Adoração Bíblica, p. 16-20



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